Movimento estudantil de direita?

CABEÇA DE BACALHAU, ENTERRO de anão, entrevistado do Ibope, filhote de pomba, foto da sogra na carteira, saci-pererê, boitatá, mula-sem-cabeça. Adiciono mais uma coisa que ninguém nunca viu: movimento estudantil de direita.

Não mais.

Há poucos anos, chapas de direita foram formadas em algumas das principais universidades do Brasil. É o caso da chapa Reconquista, na USP; e da DCE Livre, da UFRGS. Numa reviravolta absolutamente fantástica, esta venceu as eleições do DCE da UFRGS na quarta tentativa, em novembro de 2009, pela diferença de 35 votos.

Chapa de direita venceu na UFRGS em novembro de 2009. Foto: Cedê Silva

Para entender a importância dessas notícias, é preciso freqüentar o cenário acadêmico. Tome-se meu exemplo. Me formei num bom colégio particular de Belo Horizonte. Fui a duas universidades: formei na PUC Minas e estou prestes a formar na UFMG também. Nesses anos todos, conheci apenas um professor mais ou menos “conservador”. Vários e vários radicais de esquerda; outros tantos simpáticos ao petismo. E TODOS os movimentos estudantis, grêmios, CAs, DAs e DCEs da vida, sem exceção, não apenas eram de esquerda, mas radicais de esquerda mesmo, dos que pregam a revolução do proletariado, acham que Lula não é suficientemente de esquerda, e não raro são massa de manobra de partidos políticos de verdade (sem exceção, PT, PSTU e PSOL). O leitor deve olhar também para a UNE de hoje, completamente rendida ao governo de plantão; e sua “alternativa”, a Conlute, uma entidade estudantil que quer estar à esquerda da UNE.

ANTECEDENTES – Para João Leonardo Pietrobeli, estudante de medicina e 2º vice-presidente do DCE da federal gaúcha, a discussão sobre cotas raciais foi importante para que o movimento ganhasse espaço. Ao contrário da maior parte das questões políticas, elas afetam direta e visivelmente o cotidiano dos estudantes, e na oposição a elas os direitistas ganharam muitas adesões. O caso da USP é parecido: um evento externo ajudou a despertar a direita. Rodrigo Souza Neves, que cursa História na USP e também Engenharia Nuclear no Ipen, avalia que a longa ocupação da reitoria, em 2007, e a radicalização do movimento grevista contribuíram para fortalecer a oposição de direita. Os grevistas chegaram a formar barricadas para impedir  o acesso de alunos às salas. Também fizeram cordões de isolamento, e agrediram alunos com chutes e pedradas. “Ficou claro que o debate de idéias foi substituído pelo confronto físico”, conta Rodrigo. “Foi a prova cabal de que as pessoas opostas às práticas do movimento estudantil de esquerda não podiam mais ficar caladas. Porque agora a discordância não significava apenas o desprezo por parte deles, mas um risco à integridade física”.

Movimento estudantil de direita ganha força no Brasil. Foto: Cedê Silva.

A chapa de Rodrigo concorreu às eleições ao DCE em 2009. Segundo ele, perdeu por fraude.  “As assinaturas das cédulas não correspondiam às escritas em ata”, conta. As eleições na USP não têm qualquer espécie de registro formal ou jurídico, o que impede que se recorra à Justiça.

LIMINARES – Segundo Marcel van Hattem, diretor de Relações Institucionais do DCE da UFRGS, uma boa assessoria jurídica é fundamental para o movimento estudantil. A chapa DCE Livre entrou na Justiça várias vezes ao longo dos anos, para garantir que os votos fossem corretamente contados ou para reverter decisões da Comissão Eleitoral – a máquina, claro, estava com a situação.

Apesar das dificuldades, há bastante esperança.  “Basta ver que uma chapa com 160 militantes teve cerca de mil votos; e a nossa, com 17 militantes, teve uns 2.500 votos”, diz Rodrigo. Nessa conta, um militante da direita vale 23 esquerdistas.

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9 Comentários

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9 Respostas para “Movimento estudantil de direita?

  1. @rafaelprince

    Conheço o advogado / assessor jurídico da chapa Reconquista. Se quiser, passo o contato para que ele conte um pouco mais sobre a fraude e o porquê de terem recusado a via judicial.

  2. Guilherme Muts

    Concordo. Na verdade, acho que me expressei mal: eu quis dizer que regionalismo e universalismo podem ocorrer juntos, ficou parecendo que eu disse o contrário.

    Ah, do caralho movimento estudantil de direita, votava com certeza : )

  3. O que entristece qualquer um é saber da degeneração moral da chapa Reconquista, que de “apartidária” quer se converter no braço do malufismo na USP.

    O que não existe mesmo é um Movimento Estudantil de caráter liberal ou libertário.

  4. Iago

    Fiquei na curiosidade de saber, anyways, o que significa esse “de direita”. De esquerda eu sei porque já vi de montão (e a história da massa de manobra partidária é verdade pra maioria dos casos). Mesmo que você seja “de esquerda”, trampar contra as chapas mantidas por partidos é foda, porque elas recebem financiamento de cima.

  5. Pingback: Os números de 2010 | Jornalista Cedê Silva

  6. sobre direita e esquerda , iago, recomendo Norberto Bóbbio, direita e esquerda. Muito lúcido , seria extremamente injusto considerar a análise dele como esquerdista, justamente pelo equilíbrio de sua análise.

  7. Leonardo sperandio silvestre

    Direita chutando essescomunistas babacas

  8. Ivan

    Força direita, acabe com os comunistas. Concordo com Paulo Francis, “Só no Brasil se leva a sério comunismo”.

  9. Manoel Washington de S. Moreira

    Prezados direitopatas , o Brasil e o mundo simpatiza pela esquerda , na campanha presidencial de 2008 nos EUA , o mundo desejou a vitória de Obama . Se vocês de sentem frustados com isso , que tal colonizar o planeta marte , por ironia do destino conhecido como vermelho

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