Notícias de um protesto

burke

Este cara leu livros e escreveu outros.

Todo protesto na rua é um ato de força, todo dinheiro emana do povo, e todo gigante, ao acordar, deve antes de tudo correr à biblioteca.

1. Todo protesto é um ato de força

Muitas vezes, quando ando na rua, chego a lugares onde a calçada tem largura suficiente para apenas duas pessoas. É muito comum no Brasil encontrar duas pessoas juntas que, mesmo nesses exíguos espaços, insistem em caminhar lado a lado, impedindo que alguém mais apressado ou mais ágil as ultrapasse. Eu nunca faço isso – se estou em grupo, ando atrás ou à frente das pessoas, de modo a permitir espaço para pelo menos uma pessoa em favor de outros transeuntes. Mas que… em escadas, rolantes ou não, o mesmo fenômeno ocorre, sem falar nos grupos grandes de amigos que insistem em rodear portas, entradas, esquinas, espaços entre mesas de botecos e outros locais.

O corpo humano é um objeto físico, tridimensional, e que, em muitos casos, pesa acima dos cinquenta quilos (um saco de cimento). Por isso, todo protesto na rua, toda passeata, é sempre um ato de força: uma reunião de corpos que bloqueia, dificulta ou impede a passagem de outros corpos, incluindo pessoas e veículos carregando pessoas.

Se pode haver um “protesto pacífico”, então devemos aceitar que é pacífico que alguém bloqueie um corredor ou uma escada, a porta do elevador, ou que se sente em nosso lugar no cinema. Podemos não estar falando de violência, mas estamos falando, no mínimo, de um ato de força.

2. Toda multidão cria um ambiente novo

Se eu estiver na rua com muita vontade de fazer xixi, não poderei fazê-lo impunemente numa praça razoavelmente movimentada, à vista de famílias escandalizáveis. Se eu quiser jogar uma lata de refrigerante no chão, ignorando as lixeiras, também não fica bem fazê-lo à frente de uma avó, um grupo de jovens ou um guarda.

Nos carnavais de rua, as pessoas costumam se comportar de forma diferente. Jogam ao chão latas, copos e maços de cigarro com uma presteza que não teriam de outra forma. A multidão camufla, protege, anonimiza, incentiva. Cria um outro ambiente. Em que época do ano vemos notícias de gente fazendo xixi na rua? Por que será?

Ainda que a maior parte da multidão esteja lá para se divertir, para sambar, para paquerar; ainda que a maior parte da multidão use os banheiros (e sem sujar tudo); ainda que a maior parte da multidão jogue o lixo no lixo, a menor parte que faz xixi na rua e joga lixo no chão não faria essas coisas se não fosse a multidão. Boa parte dessa minoria não tem esse comportamento fora do Carnaval.

Isto significa que os foliões comportados são responsáveis pela sujeira da minoria? Não. Mas significa isto: não se forma uma multidão impunemente.

Na noite de quarta-feira (19) testemunhei um carro, em uma movimentada avenida de Belo Horizonte, ser cercado por dúzias de manifestantes. Ele quis trafegar na contramão exatamente para evitar o fluxo do protesto. Algum dos manifestantes que cercaram o carro teria feito o mesmo se estivesse sozinho?

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Marcos Bizzotto/Futura Press

Pierre Ramon Alves de Oliveira tentou destruir a porta da prefeitura de São Paulo. Teria feito o mesmo numa outra terça-feira, sem os milhares de manifestantes atrás dele?

Manifestações grandes não podem ocorrer sem custo, sem fechar rotas, sem fornecer escudos humanos para potenciais aproveitadores, sem exaltar ânimos.

3. Todo dinheiro emana do povo

Todo o dinheiro emana do povo, notadamente o dinheiro público. Para aumentar o salário de alguém, é preciso tirar o dinheiro de algum lugar: máxima que todos entendem quando os políticos aumentam os próprios salários, mas nunca invocada na hora de aumentar os salários de determinada classe de servidores.

Para manter tarifas congeladas, o povo vai pagar o preço, se não nas bilheterias dos metrôs, de alguma forma – nas creches, nos salários dos professores, na merenda, na coleta de lixo.

O transporte público é alvo mais fácil porque sua tarifa é visível e paga todo dia. Não ocorre o mesmo com o IPTU, o Imposto de Renda, e um monte de outros impostos e taxas que a gente nem vê quando paga (mas paga). Por isso, reduzir a tarifa do transporte é mais palpável que cortar o salário de vereadores ou a verba de gabinetes.

Se informam que o problema então é o marco legal do transporte público, que prevê lucro garantido às concessionárias, então temos duas consequências. Primeira: o congelamento da tarifa é desde já ineficaz, e não pode nem ser chamado de inócuo porque tem efeitos negativos em outros serviços públicos. Segunda: o debate do marco legal deve ser no Congresso (ou na Câmara Municipal, o que seja), com discurso, emenda, projeto, relator, revisor, adiamento da sessão, motion for the division of the question e o escambau. No rito, não no grito. Na república é assim. Mas para isso…

4. Todo gigante deve frequentar a biblioteca

Vou falar de duas cenas muito comuns na minha timeline de Facebook nos últimos cinco dias.

Primeira: os donos dos dias. E das ruas. Nunca vi, mesmo entre amigos e conhecidos, tanta vocação autoritária, tantos candidatos a Cebolinha (dono da rua). Pessoas dizendo “hoje não é dia disso, e sim daquilo”, “o movimento precisa protestar por esta, não aquela causa”. Muita gente, muita gente mesmo, ridicularizou quem protesta contra a corrupção, porque ninguém seria a favor da corrupção. Então ninguém deveria protestar contra o racismo? Ou pelo meio ambiente?

Houve ainda quem dissesse que não se deveria pedir o impeachment de Dilma, porque o vice é Michel Temer e ademais “trocar de presidente não muda nada”. Uma foto com esse texto mostra os ex-presidentes vivos.

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Charge cebolinha

Então os militantes do Fora Collor eram uns bestas, porque Itamar Franco era vice dele? E onde estava esse pessoal na época do “Fora FHC”, já que nenhum deles se lembrava do Marco Maciel? E então quer dizer que mudar do FHC pro Lula não significou nada? Eleger o Serra em 2002 dava na mesma?

Uma vez cobri uma assembleia de estudantes na USP, num enorme espaço aberto e público, ocupado por umas 3 000 pessoas. De repente rola no Twitter: “tem repórter infiltrado aqui?”.

Mas parece que hoje é isso mesmo. Os Cebolinhas estão aí! As ruas têm dono! E eles devem ter cuidado, segundo eles, com os “infiltrados”!

Segunda cena muito comum: montagens fotográficas, como as de Palmirinha e até do Marc Zuckerberg, mostrando um falso apoio às manifestações. Reportagens antigas, como a tentativa de aumento do salário dos vereadores em BH, reproduzidas como se fossem novidade. Notícias de mortes e violências que não ocorreram se espalhando em grande velocidade. E apesar da intensa e ostensiva cobertura da imprensa, a narrativa de que “a mídia não mostra!”. Nunca vi tanta desinformação sendo compartilhada na internet.

E agora volto ao ponto. Muita gente por aí disse que o movimento precisa de foco, de união, de definir o que quer… outros mais otimistas acham que a manifestação vai aprender espontaneamente, que as coisas são assim mesmo, vamos pra rua primeiro e depois a gente vê como fica (ex. Xico Sá).

Isso não vai acontecer. Como debater com milhares de pessoas? Na ONU, que não tem nem 200 países, eles formam subgrupos e comitês para quase tudo. E isso porque relatórios e propostas circulam por escrito para todos… Como definir metas, foco, reivindicações, na rua?

Só se for do tipo que chega na balada, um monte de gente falando alto, outros dançando, e aí você chega na menina querendo discutir Schopenhauer…

Moçada, multidões nas ruas podem CAUSAR mudança social. Mas não podem, por si mesmas, dizer a DIREÇÃO da mudança.

Vimos isso no Egito. Multidões derrubaram Mubarak. Em que país vivem hoje? Quem mais se aproveitou da mudança causada pelos protestos, como acabo de assistir no Sem Fronteiras da Globo News, foi quem estava mais bem preparado politicamente: a Irmandade Muçulmana.

Qual é o partido político mais forte do Brasil? Qual tem a mais forte, mais dispersa e mais bem-organizada militância?  Qual tem, portanto, as melhores condições de se aproveitar de uma mudança social? Percebam – neste caso, é exatamente o partido que está no poder…

Para propor alternativas, para poder orientar a mudança e não apenas provocá-la, é preciso definir metas, mas para isso é preciso estudar, ler a PEC 37 inteira (a emenda em si tem um parágrafo só, mas você já leu?), usar a Lei da Transparência para exigir os contratos com as empresas de transporte, acompanhar os trabalhos nas câmaras municipais, e acima de tudo ler livros, e, depois, ler outros. A direção da mudança é definida antes de ir às ruas – e se durante, fora delas…

O último livro de meu guru Nassim Nicholas Taleb fala muito de skin in the game, a noção de que mais importante do que as pessoas recomendam é o que elas mesmas fazem (daí, na antiguidade, o engenheiro tinha que dormir por um tempo debaixo da ponte que ele construiu. Se for boa mesmo…). Não vou recomendar a ninguém o que fazer no sábado. Mas eu devo ficar em casa.

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2 Comentários

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2 Respostas para “Notícias de um protesto

  1. Abner

    Muito lúcido Cedê. Os cebolinhas chamam o povo para a rua, mas só se eles pensarem igual e trouxerem o smartphone para postar tudo no Face. Sem juízo de valor ao ato de manifestar, mas mesmo uma “manifestação pacífica” é um ato de violência contra o direito de ir e vir do cidadão que discorda.

    Abner Contaldo

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