A lição dos Men in Black para o PT

umbrellaUMA VEZ FUI TRABALHAR de guarda-chuva. Eu era produtor do CQC, o céu de Brasília estava nublado e por dever de ofício eu sempre levava uma mochila, o que facilitava carregar o guarda-chuva. Meus colegas de trabalho ficaram visivelmente espantados. “Quê isso, o Cedê trouxe um guarda-chuva!”. “Olha isso, meu, um guarda-chuva!”. Nunca consegui entender aquela consternação. E naquela semana chuviscou.
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Todos se lembram do filme Men in Black, mas quase ninguém da cena mais importante. Após o parto do bebê alienígena, os agentes K e J se dirigem a uma banca de revistas. O experiente K (Tommy Lee Jones) compra alguns tabloides malucões, desses com manchetes do tipo “Engravidei do Elvis”.

Os jornais em "MIB": "o papa é papai"

Os jornais em “MIB”: “o papa é papai”

Atenção. No mundo de MIB existe de fato uma organização super-secreta que orquestra uma conspiração para esconder da humanidade um segredo muito importante (os aliens estão entre nós). Mas a redoma não é total: existem brechas. Os tabloides malucões que quase ninguém lê contam com precisão o que está acontecendo com os aliens na terra: “é o melhor jornalismo investigativo”, diz o agente K.

O recado é claro: para você derrubar uma ideia, o melhor caminho não é escondê-la. É divulgá-la bastante, desde que ela apareça absurda e ridícula.

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Em seu perfil na Piauí o poderoso advogado Kakay conta várias histórias interessantes. Uma delas: ele soube que a Istoé preparava uma reportagem de capa sobre um cliente seu. O que fez? Telefonou para a Folha e vazou todas as informações, mas como se fossem coisa desimportante. A Folha publicou uma notinha. Istoé derrubou a reportagem de capa.

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Desde os tempos mais primórdios a petezada se esforça em deslegitimar qualquer oposição. É assim desde a longínqua época do “Cansei” e outras manifestações de priscas eras. Uma de suas grandes aliadas nessa campanha é a palavra “criminalizar”, que nunca jamais foi usada por uma pessoa honesta. “Não podemos criminalizar a política” ou “não se devem criminalizar os movimentos sociais”, etc.

No fim do ano passado, a petezada tentou igualar a palavra “impeachment” a “golpe”, um absurdo completo. Afinal, impeachment está na Constituição, já golpe…

Na Avenida Paulista, Luciana Genro, a campeã da luta contra as oligarquias, filha do ex-ministro e então governador Tarso, promoveu um protesto “contra a direita e pelos direitos”, o que nos leva a concluir o óbvio: para ela, ser de direita não é um direito. Não é que ela aceite debater com os adversários de suas ideias; essas ideias simplesmente não têm direito de existir.

Como as manifestações contra o governo insistiam em acontecer, a petezada inventou então o “terceiro turno”, o que é realmente engraçado. Afinal, são eles mesmos que vivem dizendo que política se faz sempre, não apenas a cada quatro anos, e até outro dia ainda pediam maior participação dos “criminalizados” “movimentos sociais” na política.

Já o “aceita que dói menos”, outro termo favorito dos petistas, ficou insustentável, porque com ele não é possível dizer ao mesmo tempo que o Congresso é o mais conservador desde os tempos do Cretáceo. Quem enche a boca para pedir “aceitação do resultado” da eleição no Executivo não pode ficar de mimimi com o resultado do Legislativo.

Ficou claro o seguinte: não era mais possível segurar a oposição, nem pautá-la por antemão carimbando que era “golpismo”. E já não funcionavam os demais rótulos de ridículo.

Ontem (8) os eleitores de Dilma não ouviram esta frase da presidente na TV: “Você tem todo direito de se irritar e de se preocupar”. Eu entendo, era mesmo muito difícil ouvi-la com todas aquelas panelas batendo. Mas como não ouviram, passaram a deslegitimar o protesto.

E os paneleiros caíram nesse jogo. Tentaram responder que classe média também tem direito de se expressar, ou que teve panelaço sim em bairro pobre, que isso, que aquilo. Falou-se até em Dia Internacional da Mulher, uma casca de banana completa nesse caso, já que quem escolheu se pronunciar no 8 de março foi a presidente.

Em vez de avaliarem as marcas das panelas alheias, os eleitores de Dilma deveriam, isso sim, fazer uma defesa objetiva dos méritos da administração. Dizer:

– Os 39 ministérios são um grande exemplo de gestão;
– O corte do orçamento nas universidades federais vai ser bão demais;
– A conta de luz está num preço justo;
– Nossos homens e mulheres no serviço exterior têm plenas condições de trabalho;
– O Vaccari é um cara bem legal, etc.

Como evidentemente não querem fazê-lo, e como não podem ocultar a ideia do protesto, o que resta é fazê-lo parecer absurdo e ridículo.

Acontece que uma panela nada tem de ridícula – é um objeto doméstico prosaico e simples.

Como um guarda-chuva….

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