Maconheiros versus maconhistas

maconhista

SEMPRE SUSTENTEI A DIFERENÇA entre dois tipos particulares: o maconheiro e o maconhista.

O maconheiro é o consumidor de maconha, com maior ou menor (ir)regularidade. Em geral sabe conversar sobre vários assuntos e é uma pessoa, enfim, comum. Ele não enxerga na maconha nada de especial. Para ele, a erva não é muito melhor ou pior que a cachaça ou coisas do tipo.

O maconhista é completamente diferente. Uma figura mais rara, mas que faz muito mais barulho. É o “nerd” da maconha. Absolutamente obcecado pelo assunto, garante que é mais inteligente que outras pessoas justamente por consumir a droga: ele, sim, é cabeça-aberta, iluminado, esperto. É proibida para ele qualquer menção a qualquer malefício do fumo, mesmo pelo óbvio fato de envolver inalar fumaça. Mais que isso: o maconhista sustenta que não apenas a maconha deve ser legalizada, como não deve haver qualquer restrição ao seu consumo. Deve-se poder fumar maconha na rua, no ponto de ônibus, no jardim de infância, na maternidade, na repartição pública e dentro dos hospitais, em qualquer dia e a qualquer hora. Com efeito, o maconhista está completamente convencido de que não apenas fumar faz muito bem à saúde, de qualquer pessoa e em qualquer ocasião, como de que quem não fuma é um idiota. Em suma, é um marcelodedoisista – ou o próprio.

O maconhismo é uma das mais fortes e tóxicas drogas produzidas e divulgadas nas universidades e além. Para crescer, não precisar ser regado ou mesmo da luz do Sol. Desenvolve-se plenamente em salas de aula, bares, redes sociais, músicas e tudo o mais. O maconhismo não é ideologia ou teoria: é uma cultura, e como tal não tem líderes nem sofre quaisquer danos com repressão policial.

***

O curso de História da UFMG (diurno e noturno) foi suspenso nesta sexta-feira (27). Ele acontece na Fafich, o equivalente mineiro da FFLCH, com o agravante de ter a ECA junto. Reportagens do Estado de Minas publicadas hoje mostram que é mais grave do que nunca o problema do tráfico e consumo de drogas no prédio. Se antes a coisa rolava com certa discrição, agora o problema é agravado por festas noturnas em alto volume, durante as quais, naturalmente, a marofa rola solta. Cerca de 7 500 alunos circulam pela faculdade diariamente – população maior que muitas cidades do interior. Mas causaria espanto à “comunidade” a escandalosa sugestão de que um lugar assim, que ademais estoca precioso patrimônio público (computadores, equipamentos de gravação, livros, etc.), deveria ter policiamento regular, não de seguranças particulares, mas da Polícia Militar.

A reportagem de hoje informa que:

– “pessoas externas à faculdade invadem os banheiros femininos, e as mulheres ficam assustadas”, segundo um professor;
– as professoras no turno da noite só ficam em seus gabinetes com as portas fechadas;
– alunos têm dificuldade de acompanhar as aulas ou estudar – “o aparelho de som, sempre ligado, atrapalha completamente as atividades em sala e mesmo na biblioteca o som acaba interferindo nas leituras”, escreveu um deles;
– uma funcionária foi orientada a fechar as portas da sala onde trabalha às 18h para “evitar incidentes”;
– de outubro para cá foram contabilizados 30 furtos de computadores e de outros equipamentos de pesquisa, como uma furadeira do laboratório de neurociência;
– a sala do coordenador de curso de História foi arrombada e um notebook furtado;
– houve tentativa de arrombar o armário do Centro de Estudos de Inteligência Governamental, que funciona no prédio;
– a professora Regina Helena da Silva afirma que “[a] festa é uma imposição a todos nós. Uma atividade que tira o nosso lugar de sala de aula, de aluno e professor. Quem estuda à noite trabalhou o dia inteiro e tem o direito de estudar”’;
– nas noites de quinta e sexta, muitos professores encerram as aulas mais cedo por causa do volume do som das festas;
– as negociações de droga no DA são feitas em voz alta por causa do volume do funk;
– além de maconha, cocaína e LSD também são vendidas e consumidas no prédio;
– a turma que roda de bicicleta à noite, percorrendo as trilhas da universidade, tem medo da área (sugestão: peçam a criação de uma ciclofaixa para obter solidariedade dos acadêmicos).

Malgrado essas impertinentes observações listadas acima, a preocupação da maior parte da comunidade acadêmica hoje foi com:

– a reportagem (e não os fatos nela narrados).

Houve até quem ironizasse a notícia de que o prédio está cheio de pichações. “Por mim eu pichava é tudo”, cheguei a ler. Pois bem, “por mim” é critério de uso do patrimônio público? Paulo Maluf certamente adora pensar na base do “por mim….”.

***

A moralizante esquerda se preocupa (em tese) com o uso do espaço público. Censuraram, por exemplo, o anunciado esforço de Eduardo Cunha de futuramente inaugurar um shopping no Congresso. Pois bem, o que existe na Fafich não é um shopping de drogas?

O que diriam os nossos letrados acadêmicos diante de uma notícia sobre tráfico e consumo de drogas numa repartição pública, numa casa legislativa…? Os prédios da UFMG não são públicos? Querer assistir a uma aula sem que a música do lado de fora atrapalhe é coisa de coxinha?

Quando esquerda e direita não conseguem concordar nem numa agenda mínima de uso público dos espaços públicos, é sinal de que o diálogo está mesmo conturbado. Em breve, ele só se dará por sinais de fumaça.

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1 comentário

Arquivado em Exclusivas

Uma resposta para “Maconheiros versus maconhistas

  1. Fraco demais, não ia nem comentar, mas é muita abobrinha

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