Jornalismo ou assessoria de imprensa?

wil mcavoyUM DOS PRINCÍPIOS DO JORNALISMO é duvidar das próprias fontes. A prática da apuração exige não apenas fazer perguntas (o que é muito fácil), mas questionar as respostas, criticar o raciocínio do entrevistado, confrontá-lo com outros dados, trazer declarações que o deixem desconfortável e, se você for talebiano como eu, levar para o lado pessoal – para medir a sinceridade/hipocrisia do interlocutor.

A VEJA São Paulo desta semana traz uma minientrevista com Paulo Maluf sobre o Minhocão. A única pergunta relevante é a última, justamente aquela que leva para o lado pessoal:

“Q: O senhor moraria num apartamento vizinho ao Minhocão?
A: Não vou responder a isso.”

Maluf pode dizer maravilhas sobre o monstruoso elevado que mandou erguer durante a ditadura, mas a única pergunta que importa é se ele trocaria a mansão onde recebeu Haddad e Lula para morar em um apê ali pros lados da Amaral Gurgel. O silêncio do deputado diz tudo sobre as demais declarações.

É essa prática básica e simples que faltou – e muito – em duas “entrevistas” recentes da Folha de S.Paulo.

***

O “sociólogo” Chico de Oliveira, de 81 anos, deu entrevista à Folha no domingo (17). Segundo Chico, o governo Dilma é “médio e medíocre” (aparentemente ele não sabe o que quer dizer “medíocre”). Ele diz também que Dilma “é uma presidente fraca”, que o “governo não tem quase respostas para nada”, que não acredita que o PT “tenha solução para nada”, que o governo “não sabe se é protecionista ou livre cambista (sic)”, e que “a atual esquerda não tem projeto. Lula nunca teve; Dilma também não tem”.

Apesar de toda essa desconfiança, afirma Chico: “Votei com convicção nela [Dilma] nas duas vezes e não estou decepcionado. Ela me pareceu ser mais de acordo com as minhas percepções”.

O texto afirma que Chico é fundador do PT e do PSOL, mas ele parece ser partidário do niilismo. Votou com profunda convicção num não-projeto que não tem solução para nada e não sabe para onde vai.

É de se perguntar: não ocorreu à entrevistadora questionar Chico sobre essa óbvia contradição? E a quem editou e revisou o texto: não caberia pedir à repórter que telefonasse para Chico e lhe indagasse sobre isso antes do fechamento?

***

Nesta segunda (18) foi a vez de Manuel Castells se servir da Folha como assessoria de imprensa. A repórter pergunta, Castells responde o que quiser, e a repórter já passa para a próxima.

Castells é um homem generoso. Segundo ele, “[o] Estado Islâmico não é um grupo totalmente desvairado”. Quer dizer, naquelas cimitarras deve haver pelo menos uma pequena fração de razão…?

Se não condena os terroristas do Estado Islâmico, Castells quer condenar o Brasil. Diz que nosso país “sempre foi violento” e que “a sociedade é bastante má”. Na MESMA entrevista, poucas linhas abaixo, faz um alerta: “[n]ão podemos criar um standard (sic) do politicamente correto”. E vai além: “é preciso defender os direitos da mulher em todo o mundo, mas as mulheres de cada cultura é que têm de interpretar isso e mostrar como querem ter esse direito respeitado”. Afinal, indaga ele, “[p]or que mulheres vão se casar e ter filhos com militantes do Estado Islâmico?”. Se essa for a opção delas, devo entender, trata-se de “interpretar isso e mostrar como querem”. E mais: “[s]e respeitamos realmente os direitos democráticos, devemos aceitar que são os povos os que elegem as formas democráticas em que querem viver”.

Em outras palavras: podemos condenar o Brasil e as sociedades ocidentais. Já o Estado Islâmico é uma mera consequência democrática das escolhas daquele povo.

Você aí que curtiu a entrevista do Castells pode muito bem dizer que não é assim que ele pensa e eu que entendi tudo errado.

Bom, é você quem está dizendo.

Porque quem fez a entrevista não pediu qualquer esclarecimento.

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