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As fanfics de esquerda

A TRILOGIA ‘50 TONS DE CINZA’ começou como fanfic da saga Crepúsculo.

‘Fanfic’ é contração de ‘fan fiction’, gênero literário no qual fãs de uma franquia escrevem suas próprias histórias com seus personagens favoritos. Como tudo encontrado com fartura e de graça na internet, a imensa maioria é de qualidade abaixo do sofrível.

’50 Tons de Cinza’ é exemplar nas características associadas às fanfics. Os personagens são rasos, o enredo praticamente inexiste e os diálogos são inacreditáveis. Uma universitária bem chatinha e virgem, Anastasia Steele, encontra por um lance do destino o homem dos seus sonhos: um jovem bilionário, lindo, sarado e misterioso que adora dar presentes caros e tem preferências sexuais um tanto particulares. Não parece incomodá-la muito que o tal Sr. Grey, antes de conhecê-la direito, já se comporte de forma bem obsessiva por ela. Enfim. ’50 Tons de Cinza’ nasceu como um subgênero literário de um produto já pra lá de ruim.

Recentemente o termo ‘fanfic de esquerda’ começou a designar os depoimentos inverossímeis — cada vez mais abundantes— nos quais o autor testemunha ou protagoniza sonhos molhados ideológicos. Mais espirituoso que o Homem-Aranha, diz a coisa certa na hora certa; mais impávido que Tony Stark, humilha policiais, militares e reaças em geral. Os autores também dizem ter visto, com espantosa frequência, crianças mais espertas que a Emília do Sítio do Pica-Pau Amarelo — sempre espertas para o lado esquerdo, claro. Há também os relatos de violências amplamente descritas mas sem nenhum outro registro — fotos, vídeos, BOs, ou outras testemunhas. Todas essas narrativas passaram a ser catalogadas em uma página essencial, a Fanfic de esquerda.

Você certamente já viu várias fanfics de esquerda. O cachorro da bandana vermelha, a mulher indignada com o peixe cru no restaurante japonês, o editor d’O Globo que perdeu a carteira, a moçada cruzando as pernas no metrô, o desabafo do incrível taxista fã da Dilma, a dona coxinha que deixou de vestir a camisa do Brasil, e um batalhão inteiro de crianças que se comportam como o Armandinho.

A fanfic do metrô é de Daniel Viana. Foi parar na Globo News como se fosse verdade. Dias ANTES da história parar no canal de notícias, o próprio Viana escreveu: “Eu sou um escritor e trabalho com realidade e ficção na escrita de contos e poesias, principalmente através do contato real com as pessoas. Resolvi criar um projeto virtual chamado “Depoimento”, onde um depoimento fictício sobre temas considerados tabus na sociedade pudesse gerar uma discussão, levantando a reflexão e debate sobre o assunto abordado”.

Nesta quinta-feira (7) o advogado Eduardo Goldenberg, fã da Dilma e do Brizola, publicou um depoimento. Ele, com “décadas de réveillon em Copacabana nas costas”, saiu de casa na noite do dia 31 com mais de 1 000 reais em dinheiro (é ele mesmo quem acrescenta: “vá entender”). Pois o humilde ladrão que lhe furtou não apenas devolveu tudo (menos 50 reais para — atenção à sofisticação — “uma” champanhe), como também deixou um bilhete (!) manuscrito (!!), assinado (!!!) e sem um só erro de ortografia (!!!!).

A história teve grande repercussão, ganhando as páginas, dentre outros, da Folha e da BBC Brasil. Só no próprio Facebook tem mais de 6 000 compartilhamentos.

Em novembro de 2015, no 3º Congresso da Juventude do PT, o faraó Lula (o #meuamigosecreto que é um homem que vive interferindo no governo de uma mulher, mas jamais foi acusado de “roubo de protagonismo”) pediu à militância que criasse uma corrente de boas notícias. Talvez seja tudo coincidência. Talvez tantos ou todos os relatos sejam mesmo verdadeiros.

A única certeza é que nossa imprensa está tratando com grande seriedade personagens tão fascinantes quanto Anastasia Steele e Christian Grey.

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