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A que veio o NOVO?

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DOIS VIDEOGAMES LANÇADOS neste ano decepcionaram profundamente o público e a crítica: Mighty No. 9 e No Man’s Sky. Ambos ficaram em desenvolvimento por anos e tiveram datas de lançamento adiadas. A apresentação inicial de seus projetos foi enormemente elogiada. Prometiam inovação e muita diversão para os jogadores. Milhares de cópias foram vendidas antecipadamente.

Ambos os jogos fracassaram. Não entregaram quase nada do que ofereceram.

Trajetória semelhante tem o partido NOVO, que disputará neste ano sua primeira eleição. O NOVO foi fundado em fevereiro de 2011. Considerando as rápidas transformações da política hoje em dia, uma época muito distante — Dilma começava seu mandato com Palocci na Casa Civil, Guido Mantega estava na Fazenda, os protestos de 2013 eram inconcebíveis, ninguém do mensalão havia sido preso. Já nessa época, no entanto, um grupo de cidadãos concluíra que nenhum partido “defendia claramente a maior autonomia e liberdade do indivíduo, a redução das áreas de atuação do Estado, a diminuição da carga tributária e a melhoria na qualidade dos serviços essenciais, como saúde, segurança e educação”.

Com muito esforço em uma longa trajetória, os militantes trabalharam pelo reconhecimento do partido no TSE, o que foi finalmente conquistado em setembro de 2015. O NOVO se credenciava para disputar suas primeiras eleições.

Neste mais de cinco anos de existência, o NOVO fez mais do que coletar assinaturas. Divulgou sua marca. Militantes publicaram artigos em jornais e revistas de prestígio. Realizaram eventos. Deram entrevistas. Angariaram fãs. O partido tem 1,2 milhão de ‘curtidas’ no Facebook, número da mesma ordem de PT (1,1 milhão) e PSDB (1,3 milhão).

Na minha Belo Horizonte, lembro-me de um evento do NOVO. Foi o lançamento do livro Pare de Acreditar no Governo, de Bruno Garschagen, em uma faculdade. O autor falou sobre o livro, e militantes, do partido. Garschagen é amigo do melhor analista político residente no Brasil, Alexandre Borges, que também já fez palestras para o NOVO. Borges já escreveu vários textos sobre como é importante para um partido obter vitórias e conquistar espaços. No entanto…

No entanto, nas eleições deste ano, o NOVO tem candidato a prefeito em apenas uma capital: o Rio.

Em cinco anos, o NOVO não conseguiu apresentar aos paulistanos um só candidato melhor que Celso Russomano ou Fernando Haddad. Em cinco anos, não conseguiu oferecer aos belo-horizontinos um só candidato melhor que Alexandre Kalil ou João Leite. Etc. etc.

Imagine a empolgação de toda aquela gente — mais de 490 000 pessoas — que assinou um papel por ser favorável à criação de um novo partido. Foi prometido a eles um partido inovador, diferente, com valores e agendas que os velhos partidos não têm. Eis que finalmente o partido obtém o registro e pode disputar sua primeira eleição, justamente uma tão significativa quanto a eleição para prefeito…! E na hora do vamos ver… não existem candidatos.

Isto é especialmente grave por causa do momento que vivemos. O PT despencou — seus candidatos a prefeito e vereador são metade de 2012. A onda anti-PT é tão grande que os candidatos petebas que sobraram escondem suas cores, sua estrela ou o nome do partido. Aécio Neves e Geraldo Alckmin foram vaiados na Avenida Paulista no grande protesto de março. É enorme a rejeição tanto ao PT quanto à sua velha “oposição”.

Portanto, uma oportunidade excelente foi desperdiçada pelo NOVO. É difícil imaginar outra eleição com mais chances de eles vencerem — o cenário em 2018 ou 2020 será outro.

Além disso, sabemos que os prefeitos são os principais cabos eleitorais do Brasil. Com poucas prefeituras, um partido elege poucos deputados federais, e portanto a pauta do NOVO fica adiada para um futuro ainda mais distante. Ao ter planos modestos em 2016, o NOVO semeia uma colheita magra em 2018.

Um candidato a prefeito pelo NOVO teria pouco tempo de TV no horário eleitoral obrigatório, mas os candidatos — todos eles — recebem cobertura da imprensa, em especial dos jornais. Aqui em BH são 11 candidatos a prefeito, vários deles de partidos radicais e nanicos. A agenda deles é divulgada nos telejornais, e o jornal O Tempo — o mais vendido da cidade — dedica ao menos um quarto de página a cada um deles todos os dias.

Quem melhor resumiu a situação foi meu amigo Marlos Ápyus: o NOVO quer o Estado tão menor que disputará a prefeitura de uma única capital.

***

(Nota: este artigo foi publicado originalmente em minha coluna semanal no Implicante).

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Se ‘Stranger Things’ fosse no Brasil…

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10. O jornalista Xico Sá se dedicaria a defender a ministra da Energia, a responsável pelo laboratório onde ocorrem experimentos macabros — pagos, é claro, com dinheiro público. Outros tantos blogueiros insistiriam na tese de que, embora a ministra tenha notório temperamento autoritário, concentre todas as decisões e seja famosa justamente pela alcunha “gerentona”, não sabia de absolutamente nada do que ocorria nas repartições.

9. Reinaldo Azevedo recorreria ao seu blog e ao seu programa na rádio para lançar várias suspeitas sobre a menina 11. “Embora ela faça um bom trabalho em geral nos livrando de bandidos”, escreveria Tio Rei, “agora essa menina está aparecendo demais e parece até que quer entrar para a política. Hashtag pronto falei”.

8. O ex-BBB e deputado federal Jean Wyllys, que descartou as opiniões políticas de “um jovem de 19 anos” por ser um jovem de 19 anos, postaria em seu Facebook várias fotomontagens zoando as crianças que correm atrás de um monstro “imaginário”, em especial do “coxinha” Mike Wheeler, que além de tudo “se diz” um “mestre” de RPG.

7. Dia sim, outro também, advogados de membros do governo envolvidos nos experimentos emplacariam notinhas ou artigos na Folha de S.Paulo convencendo o público de que nada demais está acontecendo na cidade de Hakwins, e de que as teses de que alguém pode ser responsabilizado são absurdas, idiotas e verdadeiros ataques à Constituição.

6. Blogueiras feministas defensoras da “sororidade” não teriam qualquer problema em chamar Joyce Byers de “maluca”, “louca”, “descontrolada”, “raivosa” e provavelmente “golpista” assim que ela aparecesse na TV dizendo que o governo pode ter feito alguma coisa ruim.

5. A petezada dedicaria ao menino Lucas o mesmo tratamento que concede a Fernando Holiday.

4. Eliane Brum escreveria um longo artigo afirmando que o monstro somos nós.

3. Alçado à condição de herói por milhões de pessoas em passeatas país afora, o delegado Jim Hopper prontamente viraria alvo de investigação de todo o serviço de inteligência da militância petista. Não conseguindo achar nenhum podre dele, os mesmos petebas que idolatram Lula como a um faraó diriam que é “rídiculo” que o povo cante o nome de Hopper nos estádios.

2. O Dr. Martin Brenner teria fechado acordo de delação premiada com 11. Ele estaria, coitado, em prisão domiciliar em sua mansão de 30 quartos e passaria os dias jogando Pokémon GO no jardim.

1. Assim que Temer virasse presidente, todos os problemas e monstros que os petebas insistiam com máximo vigor não existirem virariam as bandeiras mesmas da militância, que passaria a denunciar, com grande horror, os terríveis experimentos realizados na cidade de Hawkins e minha nossa, parece até que existem mortos e desaparecidos…

(Nota: Este artigo foi publicado originalmente em minha coluna semanal no Implicante).

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O que você faria em um ataque terrorista?

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LEMBRO QUE EU ESTAVA comendo pastel em um bar com amigos quando um menino de skate foi atropelado na esquina. Eu ouvi, não vi. Durante longos segundos tentei entender o que estava acontecendo. Quando dei por mim, meu amigo Rafael já estava de pé, ao celular, falando com o serviço de emergência. A ambulância demorou vários minutos para chegar.

Muitos anos depois, já como repórter da revista VEJA BH, fui com minha colega Luísa cobrir o imenso protesto próximo ao Mineirão durante a Copa das Confederações de 2013. Em certo momento a coisa ficou feia. Vândalos estilhaçaram a enorme vitrine de uma concessionária a pedradas. Outros saquearam a loja de conveniência de um posto de gasolina. Alguns atearam fogo em pneus e outros objetos. Foi aí que a polícia apareceu. Subindo a rua vinha um PM com cara de poucos amigos portando o que parecia ser uma escopeta de balas de borracha. Luísa, que estava comigo, reagiu rapidamente. Me pegou pelo braço. Corremos. Em poucos segundos entramos numa casa, não sabemos de quem, onde uma família fazia um prosaico churrasco. Nos receberam bem, apesar de termos entrado sem convite. Ficamos lá por algumas horas até a multidão se dispersar.

Como estaria o skatista se não fosse o Rafael? Como eu estaria se não fosse a Luísa?

Os ataques terroristas dos últimos meses são tantos que confundem. Quando ouço no rádio ou vejo um link na tela, já não sei se o ataque é notícia velha ou nova. Um ataque em uma balada — foi a Pulse ou a Bataclan? Um imigrante que disparou vários tiros — foi na França ou na Alemanha? Mas esse não tinha sido ontem?

O Brasil é um dos países mais violentos do mundo. Somos líderes em homicídios — são mais de 50 000 por ano. A este flagelo sempre pode se somar, a qualquer momento, a ameaça do terrorismo.

Um ataque pode ocorrer a qualquer momento em qualquer lugar. O terrorismo não exige mais ataques sofisticados — sequestrar aviões, explodir vários vagões de metrô ao mesmo tempo. Um único militante — com um fuzil, um machado ou mesmo um caminhão — pode matar várias pessoas em poucos minutos.

Em vários lugares vemos notícias de pessoas que salvaram vidas porque fizeram alguma coisa — contra terroristas ou contra bandidos comuns. Em Nice, um (ou talvez dois) homens atrapalharam o terrorista que dirigia o caminhão. No Rio de Janeiro, um frentista disparou álcool em um bandido, salvando a própria vida e frustrando o assalto. Em São Paulo, um morador percebeu a presença de um assaltante e acertou um tiro nele. No interior de Minas, um idoso disparou contra dois bandidos que invadiram sua casa.

Nem todos os casos envolvem conflito direto com os agressores. Muitas vezes, uma atitude desconfiada, um telefonema para a polícia, um grito para as potenciais vítimas ou uma mudança de percurso podem fazer toda a diferença. Não precisamos virar o Batman. Mas podemos pensar melhor em nossa segurança e na de outras pessas.

Ao chegar em um ambiente, você sabe por onde fugir, se for preciso? Se isso não for possível, você já pensou em onde pode se proteger ou se esconder? Você se treinou para pegar o telefone e discar o 190 ou 192?

Pensar nisso pode salvar vidas no futuro.

A hora é agora.

(Nota: Este artigo foi publicado originalmente em minha coluna semanal no Implicante).

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Se Star Wars fosse no Brasil…

10. A imprensa lembraria todos os dias que a Aliança Rebelde se juntou a Han Solo, um contrabandista, sonegador de impostos, que trabalhou para o terrível Jabba, o Hutt (pouco importa que Jabba tenha prestado também uns servicinhos para o Império). Ah sim: e que matou friamente o inocente líder comunitário Greedo!

9. Um influente político do Senado Galáctico se recusaria a debater com Luke Skywalker, pois afinal este é apenas “um jovem de 19 anos”.

8. Todas as compras da Princesa Leia e seu jeito de vestir seriam exibidos e criticados. Desde logo, como princesa ela não passaria de uma “coxinha” mimada cheia de si.

7. Os Cavaleiros Jedi seriam temidos pela intelectualidade chique, pois afinal são uma ordem antiga e tradicional que mistura religião com política. “O Império é laico!”.

6. Fãs entusiastas do Império louvariam a faraônica obra da Estrela da Morte, mesmo se conduzida por empreiteiras cujos líderes estão congelados em carbonite. E apesar de a Estrela da Morte ter sido usada uma única vez, os militantes ainda diriam: “e se não gostou vão ter DUAS!”.

5. Seríamos lembrados dia e noite que o Chanceler Palpatine foi eleito no voto. “Não vai ter golpe!”.

4. A cada ação da Aliança Rebelde, seriam consultados os calendários de todos os milhares de planetas até que fosse achado algum tenebroso momento histórico para emplacar como sua verdadeira motivação.

3. A crise econômica resultante dos enormes gastos do Império para se manter no poder seria retratada como fantasia, ou como um fenômeno espontâneo sem responsáveis.

2. O Imperador Palpatine teria um perfil “engraçadinho” nas redes sociais com milhões de fãs, que urrariam de prazer a cada LACRADA ou SAMBADA do grande Sith.

1. E finalmente: todas as críticas a Darth Vader seriam retratadas como recalque e ressentimento contra o pobre menino, ex-escravo, que saiu das areias de Tatooine para o alto escalão do Império Galáctico.

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Brasil e Inglaterra escalam camundongo e abelha em nova disputa


Esqueçam Beckham e Ronaldo – um camundongo de camisa xadrez e uma abelha com cabeça de leão são os novos campeões de Brasil e Inglaterra numa disputa entre as nações,  travando uma corrida pescoço-a-pescoço. Os personagens, frutos da imaginação de uma menina brasileira e outra inglesa, respectivamente, são as propostas mais competitivas na categoria feminina do concurso infantil de design de camisetas promovido por Stella McCartney (sim, filha do homem). O tema é “animais imaginários”.

Stella, que é designer de moda, usará o desenho mais votado em cada categoria (menino e menina) como “inspiração” para suas próximas camisetas infantis.

Cada candidata ganhou uma página pública de apoio no Facebook – qualquer pessoa pode se juntar a uma delas, não precisa conhecer as jovens designers: a brasileira Ana Letícia, de 6 anos, e a inglesa Eve, de 5. Os votos de verdade, porém, são feitos na página do concurso.

Quando os dois desenhos se consolidaram como os mais votados, a disputa ganhou tons nacionalistas. Um dos motes da campanha do camundongo é “Vamos mostrar as cores do Brasil!”. Outros membros clamam “faca na abelha!”. Do outro lado do Atlântico, o mesmo fenômeno: “Almost neck and neck with Brazil (AKA Rainbow Mouse)”, diz a página. Quer dizer, o país vem antes do desenho. Uma apoiadora escreve: “we are all behind you here in Spain”, como que prometendo uma coalizão bilateral europeia. Outro desafia: “Bring it on Rainbow Mouse!”. Armou-se uma “operação” com tons militares: “We are neck and neck in the competition with Brazil’s entry (…) and we can make Operation Beelion a success!”.

No momento desta escrita, o camundongo brasileiro tem 1.382 votos contra 1.271 do abeleão inglês, mas como as urnas ficam abertas até 2 de maio, muita coisa pode mudar. Para votar, é preciso ter uma conta no Facebook.

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