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O impeachment de Dilma Rousseff foi um milagre

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SOB QUALQUER ASPECTO que se olhe, o impeachment de Dilma foi um milagre. Muita gente, mesmo na oposição ao PT, diz que o impeachment não deve ser comemorado e que este momento representa um fracasso. Estão errados.

O impeachment de Dilma foi um absoluto milagre, e deve ser comemorado como tal.

Lembro de quando entrei na faculdade, em 2004. O poder do PT era quase absoluto. Lula governava como um faraó, o mensalão e o petrolão não haviam sido revelados, e era absolutamente inconcebível qualquer elemento da reação que temos hoje — chapas anti-esquerda nos DCEs, livros contra o PT, movimentos de rua como o MBL, sites como este Implicante. Reinaldo Azevedo era apenas um jornalista entre muitos. Existiam apenas duas vozes contra o PT: Diogo Mainardi, ainda na VEJA; e Olavo de Carvalho. Havia ainda um blog chamado “Centro de Mídia Independente do Socialismo Caviar”, hoje extinto. E só.

Não à toa, já no primeiro mandato Lula mostrou suas garras autoritárias. Concebeu o mensalão e o petrolão. Tentou criar o Conselho Federal de Jornalistas para censurar a imprensa. Ameaçou deportar o repórter Larry Rohter. Lançou um referendo para proibir as armas no Brasil — e depois de ouvir o “não” nas urnas, nunca mais o PT tentou consulta semelhante.

A oposição, que em um país democrático deveria ser nossa esperança, capitulou. Como Delcídio contou, fez um acordo na época do mensalão para não pedir o impeachment de Lula. Como estaria o Brasil se tivéssemos cortado em 2005 o poder do PT sobre a Petrobrás, o MPF, o Congresso, o STJ, o STF…? Mas não foi isso que aconteceu.

Já em 2015, quase todas as forças políticas e econômicas do Brasil se posicionaram contra o impeachment:

– Em raríssima manifestação política, o poderoso presidente do Itaú disse não haver motivos para o impeachment;

– A Folha de S.Paulo publicou editorial contra o impeachment (e reiterou essa posição);

– O jornal O Globo também foi contra o impeachment e pediu “condições de governabilidade ao Planalto”;

– VEJA foi contra o impeachment. Deixou isso claro na edição de 18 de março de 2015 em dois textos: na Carta ao Leitor (“A faixa providencial”) e no Ensaio de Roberto Pompeu de Toledo (“Qual a saída?”). Na edição de 22 de julho, Pompeu atacou de novo em “Razões contra o impeachment”. O texto começa assim: “Convém não sacudir demais o barco Brasil”. E isso antes de André Petry assumir a diretoria de redação…!;

– A esquerdalha de sempre — sindicatos, professores, acadêmicos, “pesquisadores”, atores, cineastas, artistas, a enorme maioria dos jornalistas (e conheço pessoalmente dezenas deles), entidades estudantis, “blogueiros progressistas”, etc. etc. — todos pessoas que conseguem fazer muito barulho e gozam de prestígio em seus círculos — martelaram contra o impeachment de dia, noite e madrugada. Sua principal missão, claro, não era atacar em si o impeachment (Petistas Magros Não Lutam Sumô), mas gerar as pautas, distorcer o enquadramento, multiplicar os gritos de “não vai ter golpe” e elevar Eduardo Cunha à condição de vilão número um do Brasil. Em grande parte, foram bem-sucedidos;

– Eduardo Cunha se posicionou publicamente contra o impeachment diversas vezes. Tratou o impeachment como uma bomba nuclear, que existe precisamente para não ser usada, e só a ativou 1) depois de vários vazamentos sobre podres dele, nunca desautorizados por Rodrigo “lavou tá novo” Janot, 2) acolhendo apenas a parte mais fraca do mais famoso pedido de impeachment, rejeitando as fraudes fiscais anteriores a 2015 e todo o petrolão;

– Rodrigo “lavou tá novo” Janot não apresentou qualquer ameaça a Dilma e em 2016 chegou a defender a posse de Lula como ministro da Casa Civil;

– Como se não bastasse, o STF fez tudo o que pôde para frustrar o impeachment, derrubando a primeira comissão eleita pelos deputados e modificando na marra o rito que foi perfeitamente usado com Collor; em outra cacetada, deu enorme e inédito poder a Renan para “acolher” novamente o impeachment; e neste dia 31, o bruxo de São Bernardo, Ricardo Lewandowski, ainda inventou outra marretada ao separar o que o texto do Artigo 52 da Constituição expressa sem qualquer ambiguidade, com o objetivo, segundo Kátia Abreu, de conceder a Dilma um empreguinho público desses com salário de 5 000 reais;

– Com exceção de alguns pouquíssimos líderes como Ronaldo Caiado, a nossa “oposição” não fez, com o perdão da palavra, porcaria nenhuma. Seu líder nominal máximo, Aécio Neves, trancou-se 2015 inteiro em seu apartamento no Rio. Não à toa, ele e Geraldo Alckmin foram vaiados em protesto na Avenida Paulista;

– Ao contrário do que ocorreu com Collor, a OAB só se manifestou a favor do impeachment na undécima hora, quando o bonde já passava;

– E isso sem falar nos líderes estrangeiros alinhados ao Foro de São Paulo, cujo temor era fundadíssimo, como vemos hoje pelos megaprotestos em Caracas, em tudo parecidos com os nossos.

APESAR de toda essa enorme constelação de podres poderes, sem nenhum apoio do estamento burocrático, sem qualquer ânimo das lideranças de “oposição”, e a enorme contragosto dos jornalistas “não-sou-petista-mas” de sempre, nós, o povo, batemos panela, fomos às ruas aos milhões, voltamos, voltamos de novo aos milhões, carregamos o impeachment nas costas, impedimos a posse de Lula como ministro e impusemos a demissão de Dilma. Fizemos isso sem quebrar uma única vidraça, sem tacar fogo em um único pneu e sem pichar um muro sequer. Todo esse trabalho inspirou nossos vizinhos, como vemos hoje na Venezuela. Agora que demitimos Dilma, é a hora de ocuparmos os espaços onde não somos bem-vindos, justamente aqueles mais cobiçados e infestados pelo PT.

Esta vitória é a primeira de muitas.

***

(Nota: este artigo foi publicado originalmente em minha coluna semanal no Implicante).

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Devolve o dinheiro, Catarse

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DILMA ROUSSEFF ESTÁ PASSANDO o chapéu. A dondoca não suporta viajar em aviões de carreira — como fazem todos os deputados federais, até mesmo os do PT. Para levantar a grana para bancar voos exclusivos, a afastada recorreu ao Catarse, uma plataforma de crowdfunding (o nome gourmet para “vaquinhas”).

Até o fim de quinta-feira (7), a campanha em favor de Dilma já havia levantado mais de 700 000 reais. É o maior projeto na história do Catarse. O site é interessado direto em campanhas grandes, já que fica com cerca de 9% do total arrecadado.

(nota sobre concentração de renda. Com 700 000 reais é possível bancar tranquilamente umas 1 500 viagens (ida e volta) de avião entre Brasília e São Paulo, por exemplo. Mas alguns preferem concentrar a grana em uma passageira só…)

Pena que a campanha viole as regras do próprio site.

As regras do Catarse são claras. “O realizador NÃO PODE (…) buscar apoio direto para sua candidatura política ou partido político”.

É óbvio e claro que Dilma é candidata a presidente da República. Seu colégio eleitoral será o Senado, daqui a algumas semanas. O texto da própria campanha afirma:

“[Dilma] [e]stá lutando e continuará a fazê-lo porque é sua obrigação defender o mandato…”

“[m]ostrar que o impeachment é fraudulento requer conversar com parlamentares, representantes de instituições e de movimentos sociais”

“A presidenta Dilma precisa continuar viajando pelo Brasil, liderando a defesa da democracia.” (fica óbvio quem será beneficiada pelo dinheiro)

O Catarse alega que suas regras servem “para alertar sobre a impossibilidade de apoio DIRETO a candidaturas e partidos políticos”, e que “o projeto “Jornada pela Democracia” tem como proponentes Guiomar Silva Lopes e Maria Celeste Martins, duas ex-companheiras de cela de Dilma Rousseff à época da Ditadura”. Bom, Catarse, aí vocês se decidam, porque as regras de vocês também proíbem “criar projetos que explorem a imagem, a voz ou o nome de pessoas sem o seu consentimento expresso”. Dilma apoia o projeto e linkou para ele em seu Twitter. Me parece bastante DIRETO.

Como Dilma é candidata a presidente (e é) e a votação no Senado será em 2016 (e será), não encontro impedimento para que valham para ela as regras da Resolução Nº 23.463 do TSE, cujo Artigo 3º menciona “[a] arrecadação de recursos para campanha eleitoral de qualquer natureza por partidos políticos e candidatos” (você leu “qualquer natureza”). Dilma está em plena campanha eleitoral, sim ou não? Se Temer cair e tivermos nova eleição neste ano, vão valer as mesmas regras desta resolução, sim ou não?

Mandei um e-mail ao Catarse perguntando se eles têm condições de observar as regras do TSE. Recebi uma resposta genérica, que não atendeu à demanda. Como não ouviram a um cliente, vou recorrer ao ReclameAqui. Quem sabe assim eles escutam.

Felizmente pude recorrer também a alguém no governo. Com a Lei de Acesso à Informação, protocolei o pedido 00077.000772/2016–23 fazendo algumas perguntinhas sobre o uso de equipamentos do Palácio da Alvorada para divulgar a campanha no Catarse. Fui informado na terça (5) que meu pedido “foi reencaminhado ao Serviço de Informações ao Cidadão da Secretaria Especial de Comunicação Social da Casa Civil da Presidência da República, para tratar do assunto”.

Imagino que eles estarão um tantinho mais interessados do que o Catarse em me informar.

(Nota: Este artigo foi publicado originalmente em minha coluna semanal no Implicante.)

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Dilma é do barroco

DILMA ROUSSEFF É DO BARROCO.

Tenho em mãos o mais novo livro do professor e amigo Derek Croxton: The Last Christian Peace — The Congress of Westphalia as a Baroque Event. É uma nova leitura da Paz de Vestfália, que pôs fim à Guerra dos Trinta Anos (1618–1648) e abriu caminho para uma era gloriosa para a França sob Luís XIV, o Rei Sol.

O que era o barroco? O que foi o século XVII? Na introdução do livro, Croxton resume alguns episódios e elementos:

– O século XVII foi a grande era das caças a bruxas, como em Salem em 1692. Mesmo os mais educados acreditavam que bruxaria e magia existiam.
– Era uma época de grande desconforto, incerteza e insegurança. A situação econômica da Europa piorou no começo dos 1600s. Guerras (inclusive a dos Trinta Anos, duh) e pragas reduziram a população e governos aumentaram impostos para financiar seus combates no continente e as expansões além-mar.
– Com o contato mais próximo dos europeus com povos da Ásia, África e das Américas, e com os crescentes conflitos religiosos [o barroco, naturalmente, coincide com o auge da Contra-Reforma], cresciam o sentimento de incerteza com as próprias crenças e o desafio às premissas que todos julgavam certas. O resultado de todas essas mudanças levou a uma profunda ansiedade sobre o mundo e sobre o lugar de cada um nele. “Como consequência”, escreve Croxton, “as pessoas pareciam se agarrar a hierarquias terrenas como último vestígio de ordem”. E adiciona: “as pessoas não apenas acreditavam em posição [rank], mas levavam a defesa de suas posições a um grau absurdo”.

O barroco é a época do mosqueteiro d’Artagnan e do intrépido e narigudo Cyrano de Bergerac (que, atenção, foram pessoas de verdade). É uma época de vociferar, de fanfarronice, de se gabar; de capa-e-espada, insultos, títulos, reivindicações. Um poeta alemão da época satirizou esse espírito em uma peça de teatro. Ela começa com um soldado exclamando um texto que não ficaria fora de lugar na boca do fake oficial Dilma Bolada:

Montagem by Dilma Bolada

“Relâmpago, fogo, enxofre, trovão, salitre, chumbo e muitos milhões de toneladas de pólvora não têm o poder de minha menor reflexão sobre as consequências de minha infelicidade. O grande Xá da Pérsia treme quando eu ando sobre a Terra. O imperador da Turquia várias vezes enviou representantes para oferecer a mim sua coroa. O mundialmente famoso mogol* não considera sua fortaleza segura de mim”.

[*nota: este mogol é sem “n” mesmo e morava na Índia].

Essas disputas de títulos (“você sabe com quem está falando, querida?”) tinham consequências reais. Uma das razões para o Congresso de Vestfália ter durado tanto tempo foram as longas negociações sobre títulos e precedência. Para citar apenas um exempo, a França se chamava “Reino da França e Navarra” e a Espanha se chamava “Reino da Espanha e Navarra”, tudo ao mesmo tempo, porque ninguém queria abrir mão do território. Sem falar no: eu casei com fulana, ah mas meu tio é duque não-sei-da-onde, etc.

O barroco é também a época em que surgem algumas das primeiras histórias de ficção científica, como Viagem à Lua (1657), do próprio Cyrano. Na sociedade da Lua, eram os velhos que deviam respeitar os jovens e não o contrário (cada época com suas fanfics).

O desconforto com o desafio a premissas por muito tempo estabelecidas, o apego a títulos, a fanfarronice, o absolutismo e o L’Etat, c’est moi, estão vívissimos neste fim do governo petista.

Um petista considera que o governo e o Estado são DELE (ou, mais precisamente, são O partido). É por isso que qualquer tentativa de deposição, não importa que dentro da lei, é “golpe”. É por isso que um ex-presidente pode virar presidente ‘de facto’ à vontade. É por isso que Temer, mesmo eleito com 54 milhões de votos, “deve renunciar”, pois afinal, “a bola é minha, se não eu puder jogar no ataque ninguém mais vai brincar”. Para o petista, o governo não é um trabalho, muito menos em equipe: é o próprio corpo do soberano. É desse espírito barroco que vêm todos os epítetos: “tirei tantos milhões da pobreza”, “faço o pobre andar de avião”, “as grandes potências tremem diante da minha diplomacia”, “a grande imprensa se curva perante as minhas conquistas”, etc.

O barroco traduz o espírito de uma época na qual cresciam o sentimento de incerteza com as próprias crenças e o desafio às premissas antes dadas como certas (por exemplo: os movimentos sociais que conseguem lotar as ruas são aqueles do PT; quem não está com o PT é apenas uma elite branca de malvados; a OAB é nossa; as reivindicações políticas que valem são apenas aquelas que surgem nos partidos políticos, nos sindicatos ou nas organizações que a gente conhece, etc.). Vale aqui uma citação do formidável texto de Renan Santos, juro que vou colar só quatro parágrafos:

“(…) O surgimento do MBL, do Vem Pra Rua e dos demais movimentos de rua possibilitou a criação de um antes inimaginável tecido político que reagrupou os milhões de Pessimildos espalhados país afora. Tudo aquilo que fora perdido em anos de aparelhamento ilegítimo das instâncias representativas da sociedade civil foi recuperado no prazo de um ano. Mais: ao contrário de fenômenos similares analisados por teóricos do mundo em rede — Occupy Wall Street, Indignados, Primavera Árabe — a revolução do Pessimildo não conta com apoio entusiasmado da academia, da imprensa e do establishment cultural. Muito longe disso, por sinal.

Esse organismo vivo, que tomou corpo ao longo de 2015, impôs derrotas fragorosas a todos os que se colocaram em seu caminho. A oposição vacilante foi atropelada pelas incisivas manifestações de 12 de abril e pela Marcha pela Liberdade, que resultou em um posicionamento pró-impeachment, na Câmara, das bancadas do PSDB, DEM e PPS. Manifestações pelegas dos outrora temidos “movimentos sociais” viraram motivo de chacota na Internet. Declarações oficiais eram convertidas em memes e piadas. Fases da Operação Lava Jato eram narradas como se fossem fim de campeonato.

Nem setores da grande imprensa escaparam. A tentativa de transformar o fenômeno em um Fla x Flu entre Cunha e Dilma naufragou, assim como a cobertura ultrajante que fizeram das aspirações dos brasileiros que saiam às ruas.

Muito a contragosto, tiveram de se render à agenda de Pessimildo: levamos o impeachment ladeira acima e unificamos um país disperso e deprimido. O monumental 13 de Março serviu como pá de cal para a luta inglória do jornalismo militante.”

Como consequência da demolição das certezas — no século XVII ou hoje — as pessoas se agarram a hierarquias terrenas como último vestígio de ordem. Ocorre que agora, assim como antes, uma dinastia está chegando ao fim.

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Uma canção para Dilma

♪ ADMITO QUE JÁ FUI subversiva
Muito mais do que podia eu prometi
E depois você já sabe:
Entreguei para o Kassab
O Mercadante, a Kátia Abreu e o Levy

Felizmente tenho o dom da magia
Um talento que eu tenho exercido
Já contei para o povão
Frequentei o Mineirão
Antes mesmo de ele ser construído! (Ha-ha!)

Pobre povo brasileiro!
Faminto, miserável
Acreditou na ilusão
O 13 como solução
Para os problemas pelos quais sou responsável! (Hah!)

Pobre povo brasileiro!
Tão triste, sem amparo
A moça ali quer estudar
E o empreiteiro, trabalhar
E eu ajudo? Mas é claro!

(Mas) Chega a conta do dentifrício…
Corto um ou outro benefício
Por um pequeno problema financeiro…
A elite me trata com desdém!
Mas tenho sido uma Dilmãe!
Para o pobre povo brasileeeiro ♪

(Falando) Fechado o acordo? Preciso que você fique em casa por três anos. Ouça bem: três anos. Até lá as coisas vão melhorar.

ARIEL
Mas se eu ficar em casa, não vou ver minha família e meus amigos que vão para a rua….

ÚRSULA
Mas você vai ter internet, heh heh. A casa toda para você. A vida é cheia de escolhas difíceis, não é? Heh heh. E mais uma coisa: não discutimos ainda o assunto do pagamento.

ARIEL
Mas eu não tenh –

ÚRSULA
Não estou pedindo muito! Só uma bobagenzinha.

O que eu quero é (pausa)… sua voz.

ARIEL
Mas sem minha voz, como pod –

ÚRSULA
E não pode bater panela também! Hah!

(Cantando)

♪ Protesto não se ouve em Brasília!
Em 2013 você viu
O deputado tem macete,
se fecha no gabinete
E não deixa a TV na Globo News!

Mudar o presidente não leva a nada!
Veja o caso do meu Collor querido
Veio um mineiro topetudo,
Abelhudo e narigudo
Que só nos trouxe um dinheiro colorido!

Pobre povo brasileiro!
Fica em casa!
Me deixa em paz!
Põe pra dormir esse gigante
Pois a coisa importante
É que sempre vai ter um cachorro atrás!

Pobre povo brasileiro!
Não bebe… petróleo
Farinha é pouca, querida
Então o meu pirão primeiro
Fica em casa, calaboca
Eu não tenho o dia inteiro
Aloizio, Jaques, ela caiu no papo
Chefa lacrou e samboooooouuuu

No
po
bre
po
vo
bra
sileeeeeeeeeeeeeeeeeeiiiiroooooooo! ♪♪♪

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O momento infame de Dilma

EM 1938 O ENTÃO primeiro-ministro britânico Neville Chamberlain fez o infame discurso “Peace for our time”. Brandindo um pedaço de papel trazido de Munique, Chamberlain acreditava ter evitado uma guerra com a Alemanha.

Há muitas formas de encarar a atitude de Chamberlain à época, mas uma coisa é certa: o papel em questão era a própria negação da realidade — a existência concreta e inegociável de uma ameaça existencial ao Reino Unido, à Europa e à raça humana.

A saga de um outro personagem britânico, Harry Potter, ecoa esse mesmo contraste. Harry e seus amigos sabem que existe uma ameaça concreta às suas vidas e à sociedade dos bruxos, mas o establishment, em especial o equivalente bruxo ao MEC, insiste em negar qualquer perigo, trabalhando inclusive pelo desarmamento de seus alunos.

***

Em recente episódio do Manhattan Connection, Diogo Mainardi professou sua fé de que o governo do PT cairá pela força dos fatos. Pouco tempo depois, coube a Dilma ter seu momento Chamberlain. No Palácio do Planalto, brandiu um pedaço de papel absurdo, objeto de cena de um enredo impossível, antecipadamente negado pela gravação de um diálogo entre ela e o homem que ainda não dormiu ministro. Como poderia Lula tomar posse “em caso de necessidade”, caso se ausentasse a uma cerimônia da qual não havia indicação nenhuma que ele iria faltar, e que o próprio Rui Falcão, o Jafar brasileiro, anunciara para a semana seguinte? Além de tudo, Dilma enforcou o patrão com a própria corda. O ministro Gilmar Mendes entendeu que Dilma, ao confessar e confirmar espontaneamente o conteúdo da gravação, tornou a legalidade desta irrelevante, permitindo que ele bloqueasse a indicação de Lula para o ministério.

Nesta terça-feira (22), após quase 280 dias preso, Marcelo Odebrecht anunciou acordo de “colaboração definitiva” dele e de seus subordinados. Marcelinho é aquele que, em um de seus vários celulares, escreveu esta singela anotação:

“dizer do risco cta suíça chegar campanha dela?”.

A realidade é inegociável.

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Eduardo Cunha, o ninja

TODOS SABEM que Eduardo Cunha é o homem mais poderoso do Brasil, mas poucos sabem que ele é ninja. E também um grande jogador de Splinter Cell.

“Splinter Cell” é uma série de stealth games, ou seja, jogos de furtividade. O jogador entra em bancos, instalações militares, presídios, mansões e alguns dos lugares mais bem-protegidos do mundo sem ninguém perceber. Evita câmeras, hackeia os sistemas de segurança, distrai os guardas, apaga as luzes, realiza sua missão e sai de lá sem deixar rastros. No modo mais difícil, o jogador não pode encostar a mão em um inimigo sequer. Basta ser detectado para receber o “Game Over”. Este é o modo favorito de Eduardo Cunha.

Ao se acreditar na pauta ventilada pela nossa imprensa, Eduardo Cunha é não apenas imensamente poderoso, mas também incrivelmente furtivo. Em março, a famosa “lista do Janot” contava 47 nomes. Pelo que vimos nas últimas semanas, só um desses nomes importa: o de Cunha.

Isso não acontece, como podem acreditar os mais ingênuos, por alguma orientação política contra o homem que constitucionalmente tem a prerrogativa de encaminhar pedidos de impeachment contra a presidente Dilma. Nada disso. Na verdade, decorre da grande habilidade de Cunha noSplinter Cell.

Sozinho, sem qualquer ajuda ou orientação, Cunha se infiltrava à noite nas instalações da Petrobrás e de lá retirava tudo o que precisava, posteriormente mandando o produto para a Suíça. Cunha, pessoalmente, vestia-se de preto e evitava as câmeras, hackeava os sistemas de segurança, distraía os guardas, apagava as luzes, dava de comer aos cachorros. Se alguns poucos operadores sabiam do esquema, Cunha mandava totalmente neles. Ninguém no poder Executivo jamais soube de nada.

***

A ideia de que Eduardo Cunha “nunca apoiou” Dilma é mais uma das teses orwellianas que certo partido cometeu e certa imprensa repercute. Para citar apenas um exemplo, Cunha apoiou fortemente Dilma contra Serra em 2010. Cito alguns tweets do deputado:

“Datafolha, igualmente a todos os outros institutos de pesquisa, confirma liderança folgada de Dilma.”

“Voto em Dilma está consolidado. Indecisos vão optar pela continuidade, o que, convenhamos, é o mais sensato.”

“O discurso da Pres Dilma foi excelente,tocou nos pontos certos e nao deixou de falar na liberdade de culto e de citar Deus.Parabens”

“@Raphael_Lacerda faco parte do gov Dilma,pedi voto , sou apoiador dela,mas isso nao quer dizer que nao posso criticar atos ou pessoas do gov”

Como uma verdade não fica mais verdadeira pela soma de exemplos, paro por aqui.

***

Hoje os petistas comemoraram uma decisão do STF que deu MAIS poder a Eduardo Cunha. Com a tripla liminar concedida a um mesmo assunto (!), o plenário da Câmara não pode recorrer se seu presidente rejeitar um pedido de impeachment.

[nota: agora entendemos por que o governo Dilma não recorreu ao STF contra a avaliação do TCU. Estava guardando munição…. adiante].

Agora cabe a Cunha decidir, completamente sozinho, se acata ou não os pedidos. Sua decisão é monocrática e inapelável.

O petismo não deixa de ter suas profecias corretas, ainda que corretas porque auto-realizáveis. A partir de hoje, agora sim, Eduardo Cunha é o homem mais poderoso do Brasil.

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Dilma, a “meta aberta” e o xadrez

dilmao

“E NÓS NÃO VAMOS colocar uma meta. Nós vamos deixar uma meta aberta. Quando a gente atingir a meta, nós dobramos a meta”.

Muita gente criticou esta fala recente da presidente Dilma ao anunciar 15 000 novas vagas no Pronatec Aprendiz, no fim de julho (trata-se de um programa de qualificação profissional voltado para jovens a partir de 14 anos). Mas a frase revela um profundo problema matemático, quase tão antigo quanto o jogo de xadrez.

Vamos deixar de lado o termo “meta aberta”, que eu desconhecia (já tinha ouvido falar de “meta em aberto”), e nos concentrar apenas na matemática.

Para que o algoritmo da presidente funcione, o Pronatec, naturalmente, não pode formar zero aprendizes. O dobro de zero é zero, e o dobro do dobro de zero também é zero, etc. Assim não chegaremos a lugar nenhum.

Mas vamos visualizar o seguinte: um tabuleiro de xadrez. Ele tem 64 casas – 8×8. Vamos imaginar que esse tabuleiro serve como calendário do Pronatec Aprendiz, e cada casa corresponde a uma semana. É pouco tempo – 64 semanas, pouco mais de um ano. Não é razoável que uma criança termine um curso em apenas uma semana, mas é perfeitamente razoável fazer, nesse tempo, uma matrícula.

xadrez xadrez

Na primeira semana – a primeira casa do tabuleiro de xadrez – o Pronatec Aprendiz matricula um jovem. Temos que começar de algum lugar.

Na segunda semana, Dilma dobra a meta e matricula dois jovens. Ao final das duas semanas, serão três jovens matriculados – um veterano da primeira semana, mais dois calouros da segunda (1+2=3).

Na terceira semana, Dilma dobra a meta de novo e matricula quatro crianças. Depois, oito; depois, 16; depois 32; em seguida, 64, 128, 256 e assim por diante.

Na 15ª semana, o Pronatec vai matricular 16 384 aprendizes – isto é, apenas nessa semana, já vai superar o anúncio feito no fim de jullho, que era de 15 000 vagas. Mas na verdade a aceleração terá sido muito maior – o dobro da meta, menos um. Por quê? Porque devemos somar, aos matriculados durante a 15ª semana, todos aqueles das 14 semanas anteriores, ou seja, 1+2+4+8+…, isto é, 16 383. Assim, em 15 semanas teremos 32 767 matrículas.

O IBGE calcula que o Brasil tem 49 milhões de jovens entre 15 e 29 anos. Parece muito? Dobrando a meta, é pouco. Pois apenas na 26ª semana – ou seja, em coisa de seis meses – o Pronatec Aprendiz terá matriculado 33.554.432 jovens – isso mesmo, mais de 33 milhões. Esse contingente se soma aos 33.554.431 matriculados anteriormente, para um total de 67.108.863 aprendizes. Ou seja, se começarmos a dobrar a meta agora (14 de agosto), teremos formado todos os jovens brasileiros, com folga, pouco depois do Carnaval (obedecendo ao princípio universal de deixar metas para depois do Carnaval). Observem que estaremos na 26ª casa do nosso tabuleiro de xadrez, ou seja, percorremos pouco mais que um terço.

Ao final da 28ª semana, dobramos a meta e teremos matriculado 268.435.455 pessoas – toda a população brasileira mais a da Itália.

É tanta gente que isso deve ter um custo. Pois bem. Uma nota oficial da Petrobrás, publicada em abril de 2015, admitiu oficialmente perdas de R$ 6,2 bilhões de reais com a corrupção investigada na Operação Lava Jato. Vamos imaginar agora que cada aluno do Pronatec Aprendiz pague uma taxa de matrícula de R$ 1. Ao final da 33ª semana – que atenção, cairá em 1º de abril de 2016, uma sexta-feira como hoje – teremos arrecadado ao todo 8.589.934.591 reais, o suficiente para cobrir esse rombo da Petrobrás, quantia equivalente aos nossos 8.589.934.591 alunos – não fosse o inconveniente de esse número ser superior à toda a população da Terra.

Daqui a apenas um ano, teremos – sempre dobrando a meta – matriculado 4,503,599,627,370,495 aprendizes. É isso mesmo, mais de quatro quatrilhões de vagas. Esse número é muito superior ao PIB mundial, que é estimado na casa dos 70 ou 80 trilhões [de dólares], e está acima até mesmo da quantidade de sinapses no cérebro humano (algo entre 100 e 500 trilhões, corrijam-me os neurocientistas). Com efeito, quatro quatrilhões é aproximadamente o número de células no corpo humano – de quarenta pessoas (digamos, um presidente e 39 ministros).

Ao final do tabuleiro de xadrez – da 64ª casa, ou seja, 64ª semana, ou seja, em 4 de novembro de 2016 – dobramos a meta de novo e chegamos a 18,446,744,073,709,551,615 matrículas – isto mesmo, mais de 18 quintilhões. Com uma rápida pesquisa no Google, vejo entomólogos estimando a população mundial de insetos na ordem dos 10 quintilhões. Portanto, sempre dobrando a meta, muito em breve vamos criar vagas suficientes não para nossos cidadãos brasileiros, mas para todas as formigas, abelhas, grilos, gafanhotos, cigarras, borboletas, percevejos, moscas, mosquitos, mariposas e vespas de toda a Terra. Prefere alçar voos mais altos? Fora do tabuleiro, ao final da 73ª semana – ainda na ressaca do Réveillon de 2017 – estaremos avançados na casa do sextilhão, usada nas estimativas do número de estrelas do Universo.

O petismo é um fenômeno astronômico.

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