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Renan, Crivella e os serviços de inteligência na política

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DOIS ACONTECIMENTOS MARCARAM o noticiário político desta semana: a Operação Métis contra a Polícia do Senado e a capa de VEJA sobre o senador Marcelo Crivella (a decisão de Teori Zavascki sobre a Métis é apenas um desdobramento do fato original). Em comum, ambos os fatos mostram a importância de serviços de inteligência para os atores políticos.

Renan Calheiros, senhor das Alagoas e do Senado, se apropria de tudo. As despesas de sua amante foram pagas por uma empreiteira. Usou a gráfica do Senado para promoção de sua imagem. Fez o que pôde para atrasar e frear o processo de impeachment de modo que ele estivesse com as rédeas. É apenas natural esperar, de um homem com esse comportamento, que se apropriasse também da Polícia do Senado. Segundo a investigação da Métis, os policiais a mando de Renan foram encarregados de localizar e remover, nas casas de senadores e até do Sarney, grampos autorizados pela Lava Jato.

Se policiais conseguem localizar e eliminar grampos, a que distância estão de também saber instalá-los? Renan admitiu que sabia das varreduras da Polícia do Senado. Ora, para fazer as varreduras é preciso, no mínimo, suspeitar que os grampos existem. Renan, portanto, tinha (e talvez ainda tenha) ao seu dispôr no mínimo um aparato de contra-inteligência, para negar ao adversário a obtenção de informações sobre si e seus aliados. A Polícia Federal, ao deflagrar a Métis, avaliou corretamente que precisa primeiro desmantelar ou ao menos expôr esse serviço antes de continuar suas investigações.

A Métis também lança luz num dos episódios mais marcantes do impeachment: quando Renan brigou com Gleisi no plenário do Senado. Lembram do que Renan disse?

“Ontem (25 de agosto) a senadora Gleisi chegou ao cúmulo de dizer aqui que o Senado Federal não tinha moral para julgar a presidente da República. Como uma senadora pode fazer uma declaração dessa? Exatamente, sr. Presidente, uma senadora que há 30 dias o presidente do Senado Federal conseguiu no Supremo Tribunal Federal desfazer o seu indiciamento e o do seu esposo (protestos crescentes de alguns senadores; dizem “que baixaria!”) que havia sido feito pela Polícia Federal. Isso não pode acontecer, é um espetáculo triste que vocês estão dando para o País (Lewandowski suspende a sessão)”.

Na época, entendemos que Renan se referia a meras gestões dele no STF em favor de Gleisi. Hoje sabemos que serviços de inteligência também fazem parte de seu arsenal.

***

Sobre a capa de VEJA com Marcelo Crivella, algumas considerações preliminares:

– A denúncia que a revista traz contra o senador é, sim, grave;

– VEJA fez a decisão correta — a única possível — de publicar. Tinha a notícia na mão, apurou e publicou;

– Quem LEU a revista constatou que VEJA deixa bem claro, corretamente, que ainda mais grave do que o que Crivella fez em 1990 é o fato de que o inqúerito e as fotos tenham ficado escondidos, e por tanto tempo;

– Quem ofereceu a pauta a VEJA (em vez de outro veículo) foi muito esperto. Em um jornal diário, a repercussão seria muito menor. A capa dramática de uma semanal, em especial a maior do Brasil, carrega muito mais peso. Na TV a história não poderia ser contada com o mesmo impacto, em especial na Globo, rival da Igreja Universal. Ao ser revelada em VEJA, a notícia ganha o maior impacto possível e ainda assim pode aparecer na TV, como o ‘RJTV’ fezcom muito gosto em matéria de 4 minutos. Notem que a capa de VEJA com Crivella não foi pauta do ‘Fantástico’ nem do ‘Jornal Nacional’, um sinal de que a Globo entende (corretamente) que a informação é indispensável apenas para o eleitor carioca…

Dito isso, fica uma pergunta que até agora ninguém respondeu: se as fotos e o inquérito de Crivella ficaram escondidos durante esse tempo todo, como não apareceram antes?

Esclarecendo: por que não apareceram na eleição municipal de 2008? Por que não apareceram na eleição de 2010, quando Crivella foi reeleito para o Senado, ou em 2014, quando tentou o governo do Estado? Ou ainda: por que só vieram à tona no 2º turno desta eleição, e não antes do 1º?

Os “analistas” que estão sempre de blábláblá na Globonews gostam muito de falar em “fatos políticos”, mas nada falam sobre o papel dos serviços de inteligência — oficiais ou não — que trabalham nas sombras a favor de certos políticos.

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(Nota: este artigo foi publicado originalmente em minha coluna semanal no Implicante).

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Precisamos falar sobre Fernando Pimentel

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O governador de Minas Gerais, Fernando Pimentel (PT), ganhou um belo presente do STJ nesta semana. Por 8 votos a 6, a Corte Especial fez a Glória Pires e decidiu que cabe à Assembleia Legislativa acolher (ou não) a denúncia da PGR pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro na Operação Acrônimo. A denúncia foi oferecida no começo de maio e de lá para cá o STJ adiou algumas vezes a decisão.

É inútil discutir agora se os excelsos ministros leram o artigo 92 da Constituição de Minas:

“Art. 92 — O Governador do Estado será submetido a processo e julgamento perante o Superior Tribunal de Justiça, nos crimes comuns.

§ 1º — O Governador será suspenso de suas funções:

I — nos crimes comuns, se recebida a denúncia ou a queixa pelo Superior Tribunal de Justiça; e

II — nos crimes de responsabilidade, se admitida a acusação e instaurado o processo, pela Assembléia Legislativa.”

(corrupção passiva e lavagem de dinheiro parecem coisas escabrosas, mas salvo melhor juízo ainda são “crimes comuns”. A PGR não denunciou Pimentel por crimes de responsabilidade nem poderia, já que a instauração desse tipo de processo é exclusividade da Assembleia).

Pois então os ministros do STJ entregaram a decisão no colo dos deputados estaduais. Isso é muito interessante, pois dois deputados estaduais disputam a Prefeitura de BH:

– O deputado estadual João Leite (PSDB), vencedor do 1º turno;

– O deputado estadual Paulo Lamac (Rede), ex-petista e atual vice na chapa de Alexandre Kalil (PHS).

Ao tomar essa decisão no começo do 2º turno, o STJ levou a questão diretamente para o debate eleitoral, certo? Antes fosse. Até agora, Leite Lamac não se pronunciaram sobre o assunto (vou adorar se os candidatos mostrarem que estou errado).

Cabe a nós dar uma ajudinha para que os candidatos a prefeito e vice em uma das cidades mais importantes do Brasil deixem bem claro como pretendem exercer o trabalho para o qual são pagos.

Todos os outros deputados estaduais de Minas estão listados aqui.

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(Nota: este artigo foi publicado originalmente em minha coluna semanal no Implicante).

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10 coisas que Fernando Haddad agora terá tempo para fazer

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10. Assumir o fake oficial “Haddad Tranquilão” e vencer debates no eterno 2º turno do Twitter.

9. De olho em Tóquio 2020, treinar para o tiro com arco, finalmente botando as mãos no Arco do Futuro.

8. Trabalhar no gabinete do vereador Eduardo Suplicy e ajudar a fiscalizar na administração Doria todas as obras que Haddad não entregou.

7. Inagurar um canal do YouTube chamado “Conhecendo a Cidade” e, pedalando ao lado de Gabriel Chalita, apresentar uma tal São Paulo que é muito desconhecida do público.

6. Entrevistar Valter Correia da Silva para publicar um livro sobre gestão municipal.

5. Caprichar no modelito no desfile de inverno da São Paulo Fashion Week, que ele já conhece, e carimbar: “sou o único COBERTO de razão”.

4. Desvendar o que até hoje permanece um mistério: como o Enem consegue ter questões “pré-testadas” sobre eventos que aconteceram poucos meses antes da prova.

3. Voltar a dar aulas na FFLCH, mas desta vez sem dar a todos os alunos a mesma nota.

2. Aprimorar seu graffiti do Pato Donald e quem sabe com isso tentar um emprego de verão no parque Dismaland do Banksy.

1. Dedicar todo o seu tempo ao que, segundo sua gestão, é o assunto mais importante da maior cidade do Brasil: Marco Antonio Villa!

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Como destruir o PT neste domingo

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ELEGER É ESCOLHER. É separar o joio do trigo. Envolve identificar, classificar e, por fim, selecionar.

Nem toda escolha é feita com entusiasmo. Você gosta de escolher plano de saúde? Fica empolgado com a ideia de escolher uma funerária? Seria melhor ficar saudável o resto da vida e quem sabe imortal. Mas como as coisas não são assim, é irresponsável deixar certas escolhas para mais tarde — ou nas mãos de outras pessoas.

Com as eleições é a mesma coisa. Há quem se sinta enganado pela ideia de “escolher o menos pior”. Preferiria talvez que algum super-herói se candidatasse para poder votar nele. Mas só os iludidos votam com gosto, em super-heróis. Não é à toa que os petebas fazem apologias a seus líderes: “o maior presidente da História”, “tirou tantos milhões da pobreza”, “diva, soberana das Américas”, “prefeitão”, etc. Outra turminha gosta de chamar seu político favorito de “mito”. Nós, infelizmente, vivemos no mundo real. Votamos em gente de verdade, com algumas qualidades razoáveis e muitos defeitos.

É irresponsável deixar escolhas importantes para mais tarde. Esta eleição é muito importante — será a pior eleição para o PT em muitos anos. Tomara que seja a pior para eles na história. Você, que está lendo isto, precisa votar para que esta eleição seja a pior possível para o PT. Como fazer isso?

1. Não fique em casa. Os petebas não deixarão de votar neste domingo.

2. Verifique seu local de votação clicando aqui. Ele pode ter mudado desde a última eleição — o colégio sofreu reformas, etc.

3. Não vote em branco nem anule. Na prática isso dá no mesmo que ficar em casa.

4. Saiba quem é o vice na chapa para prefeito na qual você pretende votar.

5. Esteja ciente de que:

a. PSOL e PCdoB fecharam questão contra o impeachment e compõem o PLAPT (Partido Linha Auxiliar do PT).

b. A maioria dos deputados do PDT votou contra o impeachment.

c. A REDE, partido de Marina Silva, se dividiu sobre o impeachment.

6. Identifique os candidatos que mais irritam os petebas na sua cidade — os alvos de propagandas negativas, mentiras, montagens, tweets falsos, fotografias publicadas sem a legenda original, etc. Se eles irritam os petebas, é provável que exista uma boa razão para votar neles.

7. Leve uma ‘colinha’. Você vai votar em vereador primeiro (cinco dígitos) e só depois em prefeito (dois dígitos).

Em outros domingos, você foi às ruas. Neste domingo, é hora de ir às urnas. Bom domingo para todos nós.

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(Nota: este artigo foi publicado originalmente em minha coluna semanal no Implicante).

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Lula e o último pedido da jararaca

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NAS ELEIÇÕES DE 2012, o prefeito de Belo Horizonte, Marcio Lacerda (PSB), tentou a reeleição. Disputou contra Patrus Ananias (PT), que teve 40% dos votos no 1º turno.

Nas eleições deste ano, o candidato do PT em BH é Reginaldo Lopes. Ele tem 3% das intenções de voto segundo a pesquisa do Ibope divulgada nesta quarta. A se confirmarem os números, o eleitorado do PT na cidade terá caído em mais de 90%.

A também mineira Uberlândia tem um prefeito petista: Gilmar Machado, que tenta a reeleição. Ele tem 6% das intenções de voto, contra 75% do rival Odelmo Leão (PP). Gilmar é rejeitado por 67% dos eleitores.

Cenário semelhante ocorre na cidade mais importante do Brasil. O atual prefeito, o petista Fernando Haddad, não consegue sair do quarto lugar nas pesquisas. É o líder em rejeição, com 48% dos eleitores dizendo que não votariam nele.

Implicante já noticiou a derrocada eleitoral do PT em várias frentes. Dois exemplos: um quinto dos prefeitos do PT sai do partido em SP e Pesquisa mostra o PT perdendo mais de 90% de suas prefeituras em 2016. Também já mostrou que os candidatos que permaneceram no PT estão se pintando de outras cores para não passarem por petistas.

Assim, soa muito estranho que o comandante máximo do PT (e de outras coisas), o faraó Lula, tenha feito nesta quinta (15) um pedido sobre ‘dress code’:

“Cada petista do país tem que começar a andar de camisa vermelha. Quem não gostar, coloque de outra cor, esse partido tem que ter orgulho”.

Trata-se de um apelo desesperado da jararaca, que, se dessa vez não foi atingida na cabeça, tomou do MPF outra bordoada no rabo. Já os políticos petistas desobedeceram ao comandante com antecedência.

Um outro ex-presidente fez um famoso pedido de vestimenta para a população. Em agosto de 1992, Fernando Collor pediu ao povo que fosse às ruas vestido com as cores da bandeira. Multidões foram às ruas — de preto. Collor achava que o povo estava ao lado dele. Deu no que deu.

Lula também acredita que o povo está ao seu lado. Mas não fez seu pronunciamento de ontem na Avenida Paulista, numa praça ou em uma rua. Falou diante das câmeras, cercado de asseclas, em uma sala do Hotel Jaraguá, onde já se hospedou a Rainha Elizabeth II. O faraó-jararaca, refugiado no Jaraguá, assiste a si próprio e a sua obra derreterem.

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(Nota: este artigo foi publicado originalmente em minha coluna semanal no Implicante).

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A que veio o NOVO?

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DOIS VIDEOGAMES LANÇADOS neste ano decepcionaram profundamente o público e a crítica: Mighty No. 9 e No Man’s Sky. Ambos ficaram em desenvolvimento por anos e tiveram datas de lançamento adiadas. A apresentação inicial de seus projetos foi enormemente elogiada. Prometiam inovação e muita diversão para os jogadores. Milhares de cópias foram vendidas antecipadamente.

Ambos os jogos fracassaram. Não entregaram quase nada do que ofereceram.

Trajetória semelhante tem o partido NOVO, que disputará neste ano sua primeira eleição. O NOVO foi fundado em fevereiro de 2011. Considerando as rápidas transformações da política hoje em dia, uma época muito distante — Dilma começava seu mandato com Palocci na Casa Civil, Guido Mantega estava na Fazenda, os protestos de 2013 eram inconcebíveis, ninguém do mensalão havia sido preso. Já nessa época, no entanto, um grupo de cidadãos concluíra que nenhum partido “defendia claramente a maior autonomia e liberdade do indivíduo, a redução das áreas de atuação do Estado, a diminuição da carga tributária e a melhoria na qualidade dos serviços essenciais, como saúde, segurança e educação”.

Com muito esforço em uma longa trajetória, os militantes trabalharam pelo reconhecimento do partido no TSE, o que foi finalmente conquistado em setembro de 2015. O NOVO se credenciava para disputar suas primeiras eleições.

Neste mais de cinco anos de existência, o NOVO fez mais do que coletar assinaturas. Divulgou sua marca. Militantes publicaram artigos em jornais e revistas de prestígio. Realizaram eventos. Deram entrevistas. Angariaram fãs. O partido tem 1,2 milhão de ‘curtidas’ no Facebook, número da mesma ordem de PT (1,1 milhão) e PSDB (1,3 milhão).

Na minha Belo Horizonte, lembro-me de um evento do NOVO. Foi o lançamento do livro Pare de Acreditar no Governo, de Bruno Garschagen, em uma faculdade. O autor falou sobre o livro, e militantes, do partido. Garschagen é amigo do melhor analista político residente no Brasil, Alexandre Borges, que também já fez palestras para o NOVO. Borges já escreveu vários textos sobre como é importante para um partido obter vitórias e conquistar espaços. No entanto…

No entanto, nas eleições deste ano, o NOVO tem candidato a prefeito em apenas uma capital: o Rio.

Em cinco anos, o NOVO não conseguiu apresentar aos paulistanos um só candidato melhor que Celso Russomano ou Fernando Haddad. Em cinco anos, não conseguiu oferecer aos belo-horizontinos um só candidato melhor que Alexandre Kalil ou João Leite. Etc. etc.

Imagine a empolgação de toda aquela gente — mais de 490 000 pessoas — que assinou um papel por ser favorável à criação de um novo partido. Foi prometido a eles um partido inovador, diferente, com valores e agendas que os velhos partidos não têm. Eis que finalmente o partido obtém o registro e pode disputar sua primeira eleição, justamente uma tão significativa quanto a eleição para prefeito…! E na hora do vamos ver… não existem candidatos.

Isto é especialmente grave por causa do momento que vivemos. O PT despencou — seus candidatos a prefeito e vereador são metade de 2012. A onda anti-PT é tão grande que os candidatos petebas que sobraram escondem suas cores, sua estrela ou o nome do partido. Aécio Neves e Geraldo Alckmin foram vaiados na Avenida Paulista no grande protesto de março. É enorme a rejeição tanto ao PT quanto à sua velha “oposição”.

Portanto, uma oportunidade excelente foi desperdiçada pelo NOVO. É difícil imaginar outra eleição com mais chances de eles vencerem — o cenário em 2018 ou 2020 será outro.

Além disso, sabemos que os prefeitos são os principais cabos eleitorais do Brasil. Com poucas prefeituras, um partido elege poucos deputados federais, e portanto a pauta do NOVO fica adiada para um futuro ainda mais distante. Ao ter planos modestos em 2016, o NOVO semeia uma colheita magra em 2018.

Um candidato a prefeito pelo NOVO teria pouco tempo de TV no horário eleitoral obrigatório, mas os candidatos — todos eles — recebem cobertura da imprensa, em especial dos jornais. Aqui em BH são 11 candidatos a prefeito, vários deles de partidos radicais e nanicos. A agenda deles é divulgada nos telejornais, e o jornal O Tempo — o mais vendido da cidade — dedica ao menos um quarto de página a cada um deles todos os dias.

Quem melhor resumiu a situação foi meu amigo Marlos Ápyus: o NOVO quer o Estado tão menor que disputará a prefeitura de uma única capital.

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(Nota: este artigo foi publicado originalmente em minha coluna semanal no Implicante).

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