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O impeachment de Dilma Rousseff foi um milagre

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SOB QUALQUER ASPECTO que se olhe, o impeachment de Dilma foi um milagre. Muita gente, mesmo na oposição ao PT, diz que o impeachment não deve ser comemorado e que este momento representa um fracasso. Estão errados.

O impeachment de Dilma foi um absoluto milagre, e deve ser comemorado como tal.

Lembro de quando entrei na faculdade, em 2004. O poder do PT era quase absoluto. Lula governava como um faraó, o mensalão e o petrolão não haviam sido revelados, e era absolutamente inconcebível qualquer elemento da reação que temos hoje — chapas anti-esquerda nos DCEs, livros contra o PT, movimentos de rua como o MBL, sites como este Implicante. Reinaldo Azevedo era apenas um jornalista entre muitos. Existiam apenas duas vozes contra o PT: Diogo Mainardi, ainda na VEJA; e Olavo de Carvalho. Havia ainda um blog chamado “Centro de Mídia Independente do Socialismo Caviar”, hoje extinto. E só.

Não à toa, já no primeiro mandato Lula mostrou suas garras autoritárias. Concebeu o mensalão e o petrolão. Tentou criar o Conselho Federal de Jornalistas para censurar a imprensa. Ameaçou deportar o repórter Larry Rohter. Lançou um referendo para proibir as armas no Brasil — e depois de ouvir o “não” nas urnas, nunca mais o PT tentou consulta semelhante.

A oposição, que em um país democrático deveria ser nossa esperança, capitulou. Como Delcídio contou, fez um acordo na época do mensalão para não pedir o impeachment de Lula. Como estaria o Brasil se tivéssemos cortado em 2005 o poder do PT sobre a Petrobrás, o MPF, o Congresso, o STJ, o STF…? Mas não foi isso que aconteceu.

Já em 2015, quase todas as forças políticas e econômicas do Brasil se posicionaram contra o impeachment:

– Em raríssima manifestação política, o poderoso presidente do Itaú disse não haver motivos para o impeachment;

– A Folha de S.Paulo publicou editorial contra o impeachment (e reiterou essa posição);

– O jornal O Globo também foi contra o impeachment e pediu “condições de governabilidade ao Planalto”;

– VEJA foi contra o impeachment. Deixou isso claro na edição de 18 de março de 2015 em dois textos: na Carta ao Leitor (“A faixa providencial”) e no Ensaio de Roberto Pompeu de Toledo (“Qual a saída?”). Na edição de 22 de julho, Pompeu atacou de novo em “Razões contra o impeachment”. O texto começa assim: “Convém não sacudir demais o barco Brasil”. E isso antes de André Petry assumir a diretoria de redação…!;

– A esquerdalha de sempre — sindicatos, professores, acadêmicos, “pesquisadores”, atores, cineastas, artistas, a enorme maioria dos jornalistas (e conheço pessoalmente dezenas deles), entidades estudantis, “blogueiros progressistas”, etc. etc. — todos pessoas que conseguem fazer muito barulho e gozam de prestígio em seus círculos — martelaram contra o impeachment de dia, noite e madrugada. Sua principal missão, claro, não era atacar em si o impeachment (Petistas Magros Não Lutam Sumô), mas gerar as pautas, distorcer o enquadramento, multiplicar os gritos de “não vai ter golpe” e elevar Eduardo Cunha à condição de vilão número um do Brasil. Em grande parte, foram bem-sucedidos;

– Eduardo Cunha se posicionou publicamente contra o impeachment diversas vezes. Tratou o impeachment como uma bomba nuclear, que existe precisamente para não ser usada, e só a ativou 1) depois de vários vazamentos sobre podres dele, nunca desautorizados por Rodrigo “lavou tá novo” Janot, 2) acolhendo apenas a parte mais fraca do mais famoso pedido de impeachment, rejeitando as fraudes fiscais anteriores a 2015 e todo o petrolão;

– Rodrigo “lavou tá novo” Janot não apresentou qualquer ameaça a Dilma e em 2016 chegou a defender a posse de Lula como ministro da Casa Civil;

– Como se não bastasse, o STF fez tudo o que pôde para frustrar o impeachment, derrubando a primeira comissão eleita pelos deputados e modificando na marra o rito que foi perfeitamente usado com Collor; em outra cacetada, deu enorme e inédito poder a Renan para “acolher” novamente o impeachment; e neste dia 31, o bruxo de São Bernardo, Ricardo Lewandowski, ainda inventou outra marretada ao separar o que o texto do Artigo 52 da Constituição expressa sem qualquer ambiguidade, com o objetivo, segundo Kátia Abreu, de conceder a Dilma um empreguinho público desses com salário de 5 000 reais;

– Com exceção de alguns pouquíssimos líderes como Ronaldo Caiado, a nossa “oposição” não fez, com o perdão da palavra, porcaria nenhuma. Seu líder nominal máximo, Aécio Neves, trancou-se 2015 inteiro em seu apartamento no Rio. Não à toa, ele e Geraldo Alckmin foram vaiados em protesto na Avenida Paulista;

– Ao contrário do que ocorreu com Collor, a OAB só se manifestou a favor do impeachment na undécima hora, quando o bonde já passava;

– E isso sem falar nos líderes estrangeiros alinhados ao Foro de São Paulo, cujo temor era fundadíssimo, como vemos hoje pelos megaprotestos em Caracas, em tudo parecidos com os nossos.

APESAR de toda essa enorme constelação de podres poderes, sem nenhum apoio do estamento burocrático, sem qualquer ânimo das lideranças de “oposição”, e a enorme contragosto dos jornalistas “não-sou-petista-mas” de sempre, nós, o povo, batemos panela, fomos às ruas aos milhões, voltamos, voltamos de novo aos milhões, carregamos o impeachment nas costas, impedimos a posse de Lula como ministro e impusemos a demissão de Dilma. Fizemos isso sem quebrar uma única vidraça, sem tacar fogo em um único pneu e sem pichar um muro sequer. Todo esse trabalho inspirou nossos vizinhos, como vemos hoje na Venezuela. Agora que demitimos Dilma, é a hora de ocuparmos os espaços onde não somos bem-vindos, justamente aqueles mais cobiçados e infestados pelo PT.

Esta vitória é a primeira de muitas.

***

(Nota: este artigo foi publicado originalmente em minha coluna semanal no Implicante).

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Para quem Rodrigo Janot trabalha?

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RODRIGO “LAVOU TÁ NOVO” JANOT é o principal advogado de uma tese que muito interessa a Dilma Rousseff. Trata-se de “interpretar” o termo “atos estranhos ao exercício de suas funções” como “atos estranhos ao mandato atual”. Desta forma, segundo Janot, um governante não pode ser responsabilizado pelo seu comportamento em mandato anterior, mesmo se reeleito para o mesmo cargo.

A tese é absurda sob qualquer ponto de vista:

  • do ponto de vista cronológico. A lei do impeachment é de 1950, mas a da reeleição é de 1997. É óbvio que o legislador de 1950 não precisava prever especificamente que a lei não fica “de altas” em caso de recondução.
  • do ponto de vista textual. Um governante reeleito não muda de funções. Ele só extende o tempo pelo qual seguirá com as mesmíssimas funções.
  • do ponto de vista lógico. No Fantástico Mundo de Janot, se Eduardo Azeredo tivesse vencido a eleição de 1998, não poderia ser responsabilizado no segundo mandato pelo valerioduto tucano. Afinal de contas, as urnas já o teriam absolvido. E os petistas, sempre fiéis seguidores da lei, ficariam bem quietinhos…
  • do ponto de vista prático. Na tese de Janot, funciona assim: se um crime for descoberto, o aparato jurídico inteiro — MP, polícia, juízes e o escambau — têm menos de quatro anos para fazer seu trabalho. Se o crime for descoberto durante a eleição, o processo deve transitar em julgado em coisa de dois meses. Assim que os fogos do Réveillon estourarem, babau — mandato novo, ideias novas.
  • do ponto de vista histórico. Se o entendimento de Janot fosse pacífico, Tarso Genro não teria pedido o impeachment de FHC em janeiro de 1999…

Como muitas outras coisas no Brasil contemporâneo, o que interessa ao PT também interessa ao sócio PMDB. Não foi por acaso que Eduardo Cunha, ao escolher um pedido de impeachment para acolher dentre dezenas, preferiu justamente aquele que se concentra em crimes cometidos “em 2015”, como tanta gente gosta de ressaltar. Como qualquer político com ficha corrida, Cunha acumulou muito mais sujeira antes de 1.1.2015 do que depois (ao menos é o lógico). Mas se a tese do “lavou tá novo” ganhou tanta força no Brasil, foi graças ao seu maior advogado, Rodrigo Janot. E se o processo de impeachment de Dilma durou tanto tempo, Janot tem grande parte da responsabilidade.

***

As revistas Época e IstoÉ desta semana trazem capas opostas. Para Época, Janot é “o pesadelo do poder”. Já IstoÉ pergunta: “por que Janot pede a prisão de alguns políticos e outros não?”. Ambas as reportagens estão disponíveis de graça nos respectivos sites. São exemplos cristalinos de como é possível saber mais entendendo menos (e vice-versa). A reportagem de Época — produzida durante as férias de um de seus mais combativos jornalistas, Diego Escosteguy — tem mais apuração, fatos de bastidores, novidades, etc. A de IstoÉ é mais seca em fatos novos e muito mais editorializada, mais opinião e retrospectiva do que reportagem. Pouco importa. Quem lê a reportagem de Época aprende alguns detalhes, mas sai desinformado; na IstoÉ, ocorre o oposto. Época retrata como herói um homem que se comportou, no mundo real e prático, como um dos maiores advogados de Dilma — diga-se, mais eficiente que Zé Cardozo. Um homem que “corajosamente” pede prisão sem antes abrir inquérito (caso de Sarney) para tentar mostrar serviço, enquanto a turma de Curitiba produz muito mais com menos barulho. IstoÉ faz as perguntas pertinentes: por exemplo, como pode Janot pedir a prisão de figurões do PMDB sem ter feito o mesmo com Aloizio Mercadante, pego com a boca na botija por Marzagão, assessor do Delcídio?

***

Vamos recapitular alguns fatos:

  • Em março de 2015, foi divulgada com grande alarde a tal “lista do Janot”. Lembram disso? Ele ia “pegar geral”.
  • Desde então, processo mesmo só avançou contra UM nome: Eduardo Cunha. Salvo melhor juízo, o único da lista que virou réu até hoje. Também foi o maior alvo (e por muito tempo, o único) de vazamentos constrangedores, muitos antes de ele aceitar o pedido de impeachment de Dilma: foto de passaporte, conta na Suíça, gastos da esposa, etc.
  • Em novembro de 2015 Delcídio foi preso. Delcídio não estava na “lista do Janot” — agia fora do radar. Devemos sua prisão a um ator de teatro chamado Bernardo Cerveró.
  • Em dezembro de 2015, Janot pediu o afastamento de Cunha — logo depois de Fachin liberar o impeachment no modelo (então) definido por Cunha.
  • Em fevereiro de 2016, Janot cumprimentou Renan Calheiros em uma cerimônia, mas não Cunha. Por quê, se Renan também acumula processos no STF?
  • Em março de 2016 a Suíça prometeu a Janot enviar “avalanche” de dados sobre políticos brasileiros. Janot ainda não entregou nenhum resultado.
  • Em março de 2016, em telefonema ao petista Sigmaringa Seixas, Lula disse “essa é a gratidão dele por ser procurador”. Janot respondeu publicamente que “cargo público não é presente”. Pois bem! Em maio, ficamos sabendo que Dilma passou a chamar Janot de “traidor”.
  • Até o final de março Janot defendia a posse de Lula como ministro da Casa Civil. Depois mudou de ideia.
  • Neste mês de junho, Janot desmentiu algo que ninguém nunca cogitou: uma candidatura política em 2018 (?). Aproveitou para dizer que arca “com o ônus de desagradar a todos”. Em essência Janot disse “pau que dá em Chico dá também em Francisco” precisamente porque ele sempre fez de tudo para não bater em Francisca.

Janot é na verdade um promoter de balada ruim: todo mundo têm nome na lista, mas ele não põe ninguém pra dentro.

(Nota: Este artigo foi produzido originalmente para o Filhos da Nova República e publicado um dia antes no meu Facebook).

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O plano infalível do senador Randolfe

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O SENADOR RANDOLFE RODRIGUES (PLAPT*-AP) decidiu elevar o nível do debate político brasileiro. Afastando-nos da cusparada e do cocô em fotografia, trouxe-nos para o degrau da pegadinha.

Ocorre que a pegadinha de Randolfe mais parece um estratagema do Coiote Coió: o autor acha que vai se dar bem, mas a bomba explode na cara dele.

Na Comissão do Impeachment do Senado, Randolfe citou uns decretos e perguntou a Janaina Paschoal:

“Quais os crimes e por que isso remete ao pedido de impeachment? Eu completo depois, na réplica, Sr. Presidente”.

Neste momento já podemos imaginar na mente de Randolfe as engrenagens rodando, maquinando seu plano infalível. Janaina respondeu com seu entendimento e Randolfe retrucou:

“Obrigado, agradeço imensamente V. Sª pela descrição. V. Sª acaba de expor as razões por que também será necessário pedir o impeachment do Vice-Presidente Michel Temer. O que eu descrevi, agora há pouco, foram atos cometidos pelo Vice-Presidente Michel Temer”.

Randolfe deve ter se sentido o garoto mais travesso da classe, que pregou uma peça daquelas na professora. Se Dilma deve sofrer impeachment por X e Y, então com Temer deve ocorrer o mesmo, já que ele também fez X e Y. Que jogada brilhante! Boa, Randolfinho!

Randolfinho é um aluno tão especial que pulou as séries do primário, e por isso perdeu a aula sobre comutatividade. Se Temer deve sofrer impeachment por X e Y, logo Dilma também deve sofrer impeachment por X e Y. No entanto, Randolfe, como bom membro do PLAPT*, votará contra o impeachment de Dilma, em que pese sua lógica de menino travesso.

O que o senador Randolfe e seus fãs desejam não é o impeachment de Temer coisíssima nenhuma, mas apenas livrar a cara de Dilma e ponto final. Inclusive, votaram no Temer com muito gosto.

(*PLAPT = Trata-se do maior partido do Brasil, o Partido Linha Auxiliar do PT.)

***

No mesmo espírito da sua elevada qualidade de raciocínio, quero propôr ao senador as seguintes perguntas:

Senador Randolfe, cê tem brochove?
O senhor conhece o Mário?
Qual o aumentativo de dacueba?
Ouvi dizer, senador, que no Amapá tem jacaré. Jacaré no seco anda?
Bom vê-lo em Brasília, senador. O senhor chegou há pouco de fora?
Bonito terno, senador. Linho fio grosso?
Senador, se o senhor tivesse um cachorro chamado Nabunda…

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Por que o PT vai perder na Câmara

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A ORDEM DOS TRATORES AFETA O VIADUTO?

Não. Quando você tem voto, ganha em qualquer ordem. Se não fosse assim, o governo Dilma não estaria apelando novamente ao jus sperneandi mesmo depois de recorrer tantas vezes ao STF — inclusive para entregar a Eduardo Cunha o poder exclusivo de decidir sobre pedidos de impeachment, e depois para mudar o rito estabelecido em 1992. Sigamos.

Vamos oferecer a Dilma a hipótese mais generosa possível: começar a votação na Câmara pelo Nordeste. Todos os Estados do Nordeste, em bloco. O que teremos?

Segundo o placar do Estadão (que neste momento marca 338 x 127), teríamos 78 x 53 (excluídos os indecisos) a favor do impeachment. Isso dá quase 60% a favor do impeachment. Se a mesma proporção do Nordeste valer no plenário, serão 307 votos. “É insuficiente para o impeachment, que precisa de 342”, você diz. Sim, mas ainda não saímos do Nordeste, a região mais pró-Dilma, na qual, atenção, apenas dois Estados têm mais votos contra o impeachment do que a favor: Bahia (16 x 17) e Ceará (8 x 11), ambos governados pelo PT. No Rio Grande do Norte, os deputados prometem oferecer a Dilma a clássica goleada de 7 x 1.

E na região Norte? Ao menos entre os votos declarados, o placar do Estadão marca 39 x 12. Apenas um Estado está “fechado” com Dilma: o Amapá, com 2 deputados contra o impeachment, 2 indecisos e 4 que não quiseram responder. Portanto, entre os deputados que já anunciaram os votos, o placar do Norte é 76% a favor do impeachment. Se o Norte fosse a Câmara, seriam 389 votos pelo impeachment, 47 a mais que o necessário.

Ao que tudo indica, a votação no domingo vai começar por Roraima, que tem oito deputados. Apenas o deputado Edio Lopes (PR) declarou voto “não”. Também Roraima vai golear Dilma — e no ínicio do jogo — por um generoso 7 x 1.

***

Com a lista publicada no site da Câmara, é possível prever de qual Estado virá o 342º voto. Minha aposta é que, assim como foi em 1992, o voto decisivo virá de Minas Gerais. Usando hoje o placar do Estadão na ordem em que os Estados vão votar, chegamos a 287 votos quando a lista chega em Minas (os outros 51 votos estão em cinco Estados do Nordeste). Basta somar 55 votos — pouco mais de 10% da Câmara — para dar o nº 342 a Minas. Sem um único voto extra no Nordeste, o placar fecharia em 393 votos a favor do impeachment.

***

Em 2 de dezembro de 2015, twittei: “O impeachment é natural, democrático e inevitável. Só não veio antes porque o Cunha tava segurando”. Alguns dias depois, fui além: “o impeachment é certo, correto, líquido, absoluto, inevitável e cheiroso”. Domingão tem jogo.

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Dilma é do barroco

DILMA ROUSSEFF É DO BARROCO.

Tenho em mãos o mais novo livro do professor e amigo Derek Croxton: The Last Christian Peace — The Congress of Westphalia as a Baroque Event. É uma nova leitura da Paz de Vestfália, que pôs fim à Guerra dos Trinta Anos (1618–1648) e abriu caminho para uma era gloriosa para a França sob Luís XIV, o Rei Sol.

O que era o barroco? O que foi o século XVII? Na introdução do livro, Croxton resume alguns episódios e elementos:

– O século XVII foi a grande era das caças a bruxas, como em Salem em 1692. Mesmo os mais educados acreditavam que bruxaria e magia existiam.
– Era uma época de grande desconforto, incerteza e insegurança. A situação econômica da Europa piorou no começo dos 1600s. Guerras (inclusive a dos Trinta Anos, duh) e pragas reduziram a população e governos aumentaram impostos para financiar seus combates no continente e as expansões além-mar.
– Com o contato mais próximo dos europeus com povos da Ásia, África e das Américas, e com os crescentes conflitos religiosos [o barroco, naturalmente, coincide com o auge da Contra-Reforma], cresciam o sentimento de incerteza com as próprias crenças e o desafio às premissas que todos julgavam certas. O resultado de todas essas mudanças levou a uma profunda ansiedade sobre o mundo e sobre o lugar de cada um nele. “Como consequência”, escreve Croxton, “as pessoas pareciam se agarrar a hierarquias terrenas como último vestígio de ordem”. E adiciona: “as pessoas não apenas acreditavam em posição [rank], mas levavam a defesa de suas posições a um grau absurdo”.

O barroco é a época do mosqueteiro d’Artagnan e do intrépido e narigudo Cyrano de Bergerac (que, atenção, foram pessoas de verdade). É uma época de vociferar, de fanfarronice, de se gabar; de capa-e-espada, insultos, títulos, reivindicações. Um poeta alemão da época satirizou esse espírito em uma peça de teatro. Ela começa com um soldado exclamando um texto que não ficaria fora de lugar na boca do fake oficial Dilma Bolada:

Montagem by Dilma Bolada

“Relâmpago, fogo, enxofre, trovão, salitre, chumbo e muitos milhões de toneladas de pólvora não têm o poder de minha menor reflexão sobre as consequências de minha infelicidade. O grande Xá da Pérsia treme quando eu ando sobre a Terra. O imperador da Turquia várias vezes enviou representantes para oferecer a mim sua coroa. O mundialmente famoso mogol* não considera sua fortaleza segura de mim”.

[*nota: este mogol é sem “n” mesmo e morava na Índia].

Essas disputas de títulos (“você sabe com quem está falando, querida?”) tinham consequências reais. Uma das razões para o Congresso de Vestfália ter durado tanto tempo foram as longas negociações sobre títulos e precedência. Para citar apenas um exempo, a França se chamava “Reino da França e Navarra” e a Espanha se chamava “Reino da Espanha e Navarra”, tudo ao mesmo tempo, porque ninguém queria abrir mão do território. Sem falar no: eu casei com fulana, ah mas meu tio é duque não-sei-da-onde, etc.

O barroco é também a época em que surgem algumas das primeiras histórias de ficção científica, como Viagem à Lua (1657), do próprio Cyrano. Na sociedade da Lua, eram os velhos que deviam respeitar os jovens e não o contrário (cada época com suas fanfics).

O desconforto com o desafio a premissas por muito tempo estabelecidas, o apego a títulos, a fanfarronice, o absolutismo e o L’Etat, c’est moi, estão vívissimos neste fim do governo petista.

Um petista considera que o governo e o Estado são DELE (ou, mais precisamente, são O partido). É por isso que qualquer tentativa de deposição, não importa que dentro da lei, é “golpe”. É por isso que um ex-presidente pode virar presidente ‘de facto’ à vontade. É por isso que Temer, mesmo eleito com 54 milhões de votos, “deve renunciar”, pois afinal, “a bola é minha, se não eu puder jogar no ataque ninguém mais vai brincar”. Para o petista, o governo não é um trabalho, muito menos em equipe: é o próprio corpo do soberano. É desse espírito barroco que vêm todos os epítetos: “tirei tantos milhões da pobreza”, “faço o pobre andar de avião”, “as grandes potências tremem diante da minha diplomacia”, “a grande imprensa se curva perante as minhas conquistas”, etc.

O barroco traduz o espírito de uma época na qual cresciam o sentimento de incerteza com as próprias crenças e o desafio às premissas antes dadas como certas (por exemplo: os movimentos sociais que conseguem lotar as ruas são aqueles do PT; quem não está com o PT é apenas uma elite branca de malvados; a OAB é nossa; as reivindicações políticas que valem são apenas aquelas que surgem nos partidos políticos, nos sindicatos ou nas organizações que a gente conhece, etc.). Vale aqui uma citação do formidável texto de Renan Santos, juro que vou colar só quatro parágrafos:

“(…) O surgimento do MBL, do Vem Pra Rua e dos demais movimentos de rua possibilitou a criação de um antes inimaginável tecido político que reagrupou os milhões de Pessimildos espalhados país afora. Tudo aquilo que fora perdido em anos de aparelhamento ilegítimo das instâncias representativas da sociedade civil foi recuperado no prazo de um ano. Mais: ao contrário de fenômenos similares analisados por teóricos do mundo em rede — Occupy Wall Street, Indignados, Primavera Árabe — a revolução do Pessimildo não conta com apoio entusiasmado da academia, da imprensa e do establishment cultural. Muito longe disso, por sinal.

Esse organismo vivo, que tomou corpo ao longo de 2015, impôs derrotas fragorosas a todos os que se colocaram em seu caminho. A oposição vacilante foi atropelada pelas incisivas manifestações de 12 de abril e pela Marcha pela Liberdade, que resultou em um posicionamento pró-impeachment, na Câmara, das bancadas do PSDB, DEM e PPS. Manifestações pelegas dos outrora temidos “movimentos sociais” viraram motivo de chacota na Internet. Declarações oficiais eram convertidas em memes e piadas. Fases da Operação Lava Jato eram narradas como se fossem fim de campeonato.

Nem setores da grande imprensa escaparam. A tentativa de transformar o fenômeno em um Fla x Flu entre Cunha e Dilma naufragou, assim como a cobertura ultrajante que fizeram das aspirações dos brasileiros que saiam às ruas.

Muito a contragosto, tiveram de se render à agenda de Pessimildo: levamos o impeachment ladeira acima e unificamos um país disperso e deprimido. O monumental 13 de Março serviu como pá de cal para a luta inglória do jornalismo militante.”

Como consequência da demolição das certezas — no século XVII ou hoje — as pessoas se agarram a hierarquias terrenas como último vestígio de ordem. Ocorre que agora, assim como antes, uma dinastia está chegando ao fim.

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O 15 de março que o PT não conhece

O DIA 15 DE MARÇO é o dia do golpe mais famoso da História.

É o dia em que senadores romanos mataram Júlio César.

A data é perfeita demais para ser ignorada por quem adora gritar “golpe”. Mas foi. Em 15 de março deste ano, dia das maiores manifestações anti-Dilma, a petezada de sempre, que adora uma falsa narrativa, se esforçou para achar um aniversário escabroso que coincidisse com a data. Primeiro, mentiram descaradamente que era a data da Marcha da Família de 1964. Mas a primeira Marcha foi no dia 19. Se contentaram então em lembrar que 15 de março era a data de posse dos presidentes na época da ditadura. É verdade. Mas José Sarney também tomou posse em um 15 de março — os brasileiros foram às ruas, portanto, no aniversário de 30 anos da nossa democracia. É fogo…

A Polícia Federal deflagrou a operação Catilinárias. A mesma turma que ignorava completamente o mais famoso 15 de março de todos os tempos subitamente virou fã de história romana. Entenderam que o nome da operação era uma referência a Eduardo Cunha (cujos poderes ninja já relatei). Pode não ser bem assim. Reinaldo Azevedo e Flavio Morgenstern escreveram sobre o assunto.

Tio Rei: “Cícero era um conservador brilhante e um inimigo, para colocar em termos contemporâneos, de populistas à moda Catilina, que vivia vociferando contra os ricos, contra, ora vejam, a “Dona Zelite”. E que partiu para a luta armada. (…) ainda que em dimensões estupidamente menores, sabem quem está mais para Catilina na política brasileira? Não é Eduardo Cunha, não, mas Guilherme Boulos: pertence à elite, usa causa pública em benefício de seus interesses (ainda que sejam os ideológicos), faz discurso rancoroso contra os ricos, mobiliza seu próprio exército e adota práticas que o Código Penal define como criminosas”.

Flavio Morgenstern: “O que Catilina tentou em 63 a. C. foi, justamente, o uso do seu próprio cargo de cônsul para obter mais poder e riquezas, dando um golpe em todo o Senado. O golpe, no caso, significaria dar riquezas do Estado ao povo em troca de votos. Seu projeto era criar um exército contratando mercenários e camponeses pobres para lutar contra os exércitos particulares e os exércitos do Senado. Conquistando assim o apoio popular, com distribuição de bens e emprego, Catilina poderia não se tornar Imperator, como o será Augusto Octaviano, mas sim dominar todo o Senado, comprando votos para seus próprios projetos de poder e obter maiorias sem contrapeso. O golpe de Catilina não era para tornar a República um Império, mas sim para transformá-la em uma democracia [no sentido original], sem contrapesos”.

***

A turma que adora gritar “vá estudar História” vez ou outra faz algumas coisas engraçadas.

Hoje é 16 de dezembro, mais uma edição do ‪#‎MortadelaDay‬, no qual pessoas vão livremente às ruas para reivindicar o sagrado direito que nossos iluminados governantes têm de nunca serem punidos por nada em ocasião alguma.

Pois bem. Eles poderiam ter prestado um pouco mais de atenção à data.
16 de dezembro é a data da Festa do Chá de Boston.

Mais conhecida hoje simplesmente como TEA PARTY.

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Se Star Wars fosse no Brasil…

10. A imprensa lembraria todos os dias que a Aliança Rebelde se juntou a Han Solo, um contrabandista, sonegador de impostos, que trabalhou para o terrível Jabba, o Hutt (pouco importa que Jabba tenha prestado também uns servicinhos para o Império). Ah sim: e que matou friamente o inocente líder comunitário Greedo!

9. Um influente político do Senado Galáctico se recusaria a debater com Luke Skywalker, pois afinal este é apenas “um jovem de 19 anos”.

8. Todas as compras da Princesa Leia e seu jeito de vestir seriam exibidos e criticados. Desde logo, como princesa ela não passaria de uma “coxinha” mimada cheia de si.

7. Os Cavaleiros Jedi seriam temidos pela intelectualidade chique, pois afinal são uma ordem antiga e tradicional que mistura religião com política. “O Império é laico!”.

6. Fãs entusiastas do Império louvariam a faraônica obra da Estrela da Morte, mesmo se conduzida por empreiteiras cujos líderes estão congelados em carbonite. E apesar de a Estrela da Morte ter sido usada uma única vez, os militantes ainda diriam: “e se não gostou vão ter DUAS!”.

5. Seríamos lembrados dia e noite que o Chanceler Palpatine foi eleito no voto. “Não vai ter golpe!”.

4. A cada ação da Aliança Rebelde, seriam consultados os calendários de todos os milhares de planetas até que fosse achado algum tenebroso momento histórico para emplacar como sua verdadeira motivação.

3. A crise econômica resultante dos enormes gastos do Império para se manter no poder seria retratada como fantasia, ou como um fenômeno espontâneo sem responsáveis.

2. O Imperador Palpatine teria um perfil “engraçadinho” nas redes sociais com milhões de fãs, que urrariam de prazer a cada LACRADA ou SAMBADA do grande Sith.

1. E finalmente: todas as críticas a Darth Vader seriam retratadas como recalque e ressentimento contra o pobre menino, ex-escravo, que saiu das areias de Tatooine para o alto escalão do Império Galáctico.

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