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Jornalismo ou assessoria de imprensa?

wil mcavoyUM DOS PRINCÍPIOS DO JORNALISMO é duvidar das próprias fontes. A prática da apuração exige não apenas fazer perguntas (o que é muito fácil), mas questionar as respostas, criticar o raciocínio do entrevistado, confrontá-lo com outros dados, trazer declarações que o deixem desconfortável e, se você for talebiano como eu, levar para o lado pessoal – para medir a sinceridade/hipocrisia do interlocutor.

A VEJA São Paulo desta semana traz uma minientrevista com Paulo Maluf sobre o Minhocão. A única pergunta relevante é a última, justamente aquela que leva para o lado pessoal:

“Q: O senhor moraria num apartamento vizinho ao Minhocão?
A: Não vou responder a isso.”

Maluf pode dizer maravilhas sobre o monstruoso elevado que mandou erguer durante a ditadura, mas a única pergunta que importa é se ele trocaria a mansão onde recebeu Haddad e Lula para morar em um apê ali pros lados da Amaral Gurgel. O silêncio do deputado diz tudo sobre as demais declarações.

É essa prática básica e simples que faltou – e muito – em duas “entrevistas” recentes da Folha de S.Paulo.

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O “sociólogo” Chico de Oliveira, de 81 anos, deu entrevista à Folha no domingo (17). Segundo Chico, o governo Dilma é “médio e medíocre” (aparentemente ele não sabe o que quer dizer “medíocre”). Ele diz também que Dilma “é uma presidente fraca”, que o “governo não tem quase respostas para nada”, que não acredita que o PT “tenha solução para nada”, que o governo “não sabe se é protecionista ou livre cambista (sic)”, e que “a atual esquerda não tem projeto. Lula nunca teve; Dilma também não tem”.

Apesar de toda essa desconfiança, afirma Chico: “Votei com convicção nela [Dilma] nas duas vezes e não estou decepcionado. Ela me pareceu ser mais de acordo com as minhas percepções”.

O texto afirma que Chico é fundador do PT e do PSOL, mas ele parece ser partidário do niilismo. Votou com profunda convicção num não-projeto que não tem solução para nada e não sabe para onde vai.

É de se perguntar: não ocorreu à entrevistadora questionar Chico sobre essa óbvia contradição? E a quem editou e revisou o texto: não caberia pedir à repórter que telefonasse para Chico e lhe indagasse sobre isso antes do fechamento?

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Nesta segunda (18) foi a vez de Manuel Castells se servir da Folha como assessoria de imprensa. A repórter pergunta, Castells responde o que quiser, e a repórter já passa para a próxima.

Castells é um homem generoso. Segundo ele, “[o] Estado Islâmico não é um grupo totalmente desvairado”. Quer dizer, naquelas cimitarras deve haver pelo menos uma pequena fração de razão…?

Se não condena os terroristas do Estado Islâmico, Castells quer condenar o Brasil. Diz que nosso país “sempre foi violento” e que “a sociedade é bastante má”. Na MESMA entrevista, poucas linhas abaixo, faz um alerta: “[n]ão podemos criar um standard (sic) do politicamente correto”. E vai além: “é preciso defender os direitos da mulher em todo o mundo, mas as mulheres de cada cultura é que têm de interpretar isso e mostrar como querem ter esse direito respeitado”. Afinal, indaga ele, “[p]or que mulheres vão se casar e ter filhos com militantes do Estado Islâmico?”. Se essa for a opção delas, devo entender, trata-se de “interpretar isso e mostrar como querem”. E mais: “[s]e respeitamos realmente os direitos democráticos, devemos aceitar que são os povos os que elegem as formas democráticas em que querem viver”.

Em outras palavras: podemos condenar o Brasil e as sociedades ocidentais. Já o Estado Islâmico é uma mera consequência democrática das escolhas daquele povo.

Você aí que curtiu a entrevista do Castells pode muito bem dizer que não é assim que ele pensa e eu que entendi tudo errado.

Bom, é você quem está dizendo.

Porque quem fez a entrevista não pediu qualquer esclarecimento.

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Veja BH, Estado e Igreja

QUEM CHEGA AO 13º ANDAR do Edifício Melmor, na Avenida do Contorno, se depara com uma antessala com duas portas de vidro. Na da direita está afixado um adesivo com a arvorezinha da Editora Abril. Na da esquerda, a logomarca de VEJA BH. A separação é clara, inequívoca e física entre Publicidade e Jornalismo – ou como são chamados na Abril, Estado e Igreja.

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veja bh_numero zeroA foto acima mostra duas edições de VEJA BH que você nunca viu nas bancas. São os números zero. Foram impressos apenas 50 exemplares de cada um.

Na época, VEJA BH funcionava em uma redação improvisada no Hotel Mercure. Era na verdade a segunda encarnação da revista, muitos anos depois de uma breve VEJA Belo Horizonte editada por Laurentino Gomes. Naquele abril de 2012, tínhamos apenas um telefone, alguns laptops e muito café. E naquela sala nasceu a mais formidável equipe de jornalistas que já vi.

De uma refeição no Eddie da Rua da Bahia, ali perto, nascia também uma tradição: a Fat Friday. A ideia do repórter Augusto Franco era reunir toda a equipe para um almoço mais caprichado nas sextas – o dia mais tranquilo, posterior ao fechamento de cada edição nas quintas.

VEJA BH começou com incrível energia, astral e química. Toda vez que alguém fazia aniversário, era dia de bolo e cantar parabéns na redação. A festa de lançamento da nº1, na Torre Alta Vila, teve como mestre de cerimônias Deborah Secco. As festas da edição especial “Comer & Beber” foram igualmente prestigiadas. Fizemos também uma festa de fim de ano no badalado CCCP, só para a redação.

Nunca faltou prestígio a VEJA BH. Celebridades e políticos mineiros sempre abriram as portas para nossos repórteres. Ricardo “Eletro” Nunes, Dom Walmor, Isis Valverde, Fabio Mechetti, Ronaldo Fraga, Débora Falabella, Fernanda Vianna, Ilvio Amaral, Maurício Canguçu, Jota Quest, Haroldo Ferretti, Paula Fernandes, Thássia Naves, Aline Calixto, Pedro Paulo Cava, Fernanda Takai, Gustavo Penna, Samuel Rosa… isso pra ficar só em quem foi capa. O recorde de compartilhamentos da capa foi o perfil da Coronel da PM Cláudia Romualdo. Ao fazer perfis, a revista alcançou um sem-número de pequenos milagres, como fazer Alexandre Kalil sorrir para uma foto.

Fotos e redes sociais – dois domínios em que a revista foi craque. Sei que sou parcial para dizer, mas nunca vi revista tão bonita quanto VEJA BH. Em nenhum lugar do mundo um torresmo, uma porção de batata frita ou um espaguete pareceram tão apetitosos. Nunca se viu um incêndio na Serra do Curral, uma xícara do Café Kahlúa, a Praça Raul Soares, o Mineirão ou o Anel Rodoviário como nas páginas da revista.

Nas redes a publicação também bombou. Atingiu 30 000 fãs no Facebook em poucos meses e 100 000 fãs em menos de um ano, rapidamente ultrapassando VEJA Rio, muito mais antiga e consolidada. A forte presença nas redes garantiu a forte repercussão de muitas reportagens, dentre elas, naturalmente, o perfil da balada Secreto.

VEJA BH trouxe histórias incríveis, perfis exclusivos e alguns furos de reportagem. É óbvio e evidente que, como todo jornalista, eu tinha minhas próprias ideias sobre a direção que a revista poderia tomar. Nunca escondi minha avaliação de que poderíamos ousar muito mais. Em algumas vezes fiz grande esforço para emplacar pautas hoje consolidadas, como uma nota sobre a grafiteira Maria Raquel Bolinho (quero crer que foi uma de suas primeiras entrevistas). Pautas que eu sugeri e foram adiadas – como a migração da classe média para universidades estrangeiras no cenário pós-cotas – apareciam semanas ou meses depois em outros veículos. Alguns fatos, como a queda do Viaduto Batalha dos Guararapes ou a mal-recebida inauguração do Move, ao meu ver, mereciam capas – e não as tiveram. As irmãs VEJA Rio e VEJA São Paulo são motores do jornalismo nacional, emplacando, apenas para citar algumas pautas, A Praia dos Riquinhos, O Rei do Camarote, Pagamos 650 000 Reais por Quilômetro de Ciclovia, A Loira da Cracolândia e No Astral do Rivotril. Trilhando terrenos mais seguros, era muito raro uma pauta de VEJA BH ir parar no MGTV (por exemplo).

Mas a verdade verdadeira é que, não importa o que meu ego jornalístico queira pensar, a edição impressa de VEJA BH não caiu por suas fraquezas, mas por suas forças.

É caro – muito caro – manter uma equipe de jornalistas profissionais para pautar, apurar, checar, fotografar e fazer entrevistas – ao vivo, indo de táxi, evitando o uso do e-mail ou telefone. É caro manter uma equipe para editar, ilustrar e montar cada página. É caro imprimir tudo isso em cores e fazer chegar na sua casa todo sábado. Mas posts em blogs, avaliações “crowdsourced”, “conteúdo do usuário” – tudo isso sai de graça.

A Editora Abril enfrenta uma crise sem precedentes. Fechou quatro revistas e vendeu outras dez. PLAYBOY não tem mais site próprio, usando em vez disso o domínio de VIP. Metade do glorioso Novo Edifício Abril (NEA), em São Paulo – que quando Foca eu julgava ser o centro do Universo – está alugado para outras empresas. A última edição de VEJA BH, aliás, traz uma matéria sobre comer bem gastando pouco – e o layout da capa é reaproveitado de uma edição de VEJA São Paulo.

A gloriosa Rádio Guarani acaba de fechar. Outras tantas publicações impressas de outras editoras fecharam nos últimos anos ou enfrentam dificuldades. E a economia, claro, vai de mal a pior – péssima notícia para uma revista que vivia 100% de anúncios.

Além disso, vivemos hoje a emergência de um novo modelo de negócios, inteiramente digital e que corta todos os intermediários. Não apenas no Jornalismo. Vieram, por exemplo, os aplicativos de táxi, livrando os taxistas da necessidade de cooperativas. Os taxistas adoraram, até que veio o Uber, que livrou os passageiros da necessidade de taxistas. Em breve um app de teletransporte tornará os carros desnecessários e por fim um widget tornará obsoleto o próprio ser humano.

Mas o fato de haver Netflix não tirou das pessoas a demanda por produções de qualidade: pelo contrário, abriu um mercado para seriados exclusivos.

O fato de que as pessoas podem filmar com celular e editar no Movie Maker não ameaça a indústria do cinema e não pode encerrar a demanda por algo como “Relatos Selvagens”.

Experiências que conheci no Festival Piauí de Jornalismo – da ProPublica ao Vox.com – mostram que ainda existe e haverá demanda por Jornalismo de qualidade.

E enquanto existir demanda por Jornalismo de qualidade, escrito em linguagem clara e voltado para a vida do leitor, haverá demanda por aquele ofício que só pode ser realizado por uma equipe de profissionais talentosos, num cenário em que há separação – clara, inequívoca e física – entre Estado e Igreja.

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