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O Mensalão foi uma farsa

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DELÚBIO SOARES DISSE em 2005 que as denúncias do mensalão acabariam “virando piada de salão”. Ele estava certo.

Depois de muitos anos de investigação, mais duas vitórias eleitorais do PT e os famosos embargos infringentes, o mensalão teve seu “series finale” em novembro de 2013, quando José Dirceu, o próprio Delúbio e outros colegas finalmente foram para a cadeia. Por pouquíssimo tempo. Menos de um ano depois, Delúbio já estava cumprindo prisão domiciliar. Em março deste ano, teve sua pena perdoada pelo STF.

José Dirceu não completou um ano de cadeia com o mensalão — em 354 dias, já estava cumprindo pena em casa. Estava tão soltinho que a Lava Jato precisou prendê-lo de novo.

A prisão de Dirceu pela Lava Jato e a enorme desproporção entre a operação da turma de Curitiba e o trabalho da equipe da “Ação Penal 470” mostram que o mensalão, de fato, foi uma piada (nota: “ação penal 470” era um desses termos, junto com “presidenta”, que serviam para identificar quem é peteba).

Em sete anos de trabalho, o processo do mensalão apontou desvios de cofres públicos da ordem de 100 milhões de reais — uns 170 milhões de reais em valores corrigidos pela inflação até 2014. Vamos dar de barato que o mensalão em valores de hoje daria uns 200 milhões.

Apenas a Operação Custo Brasil, deflagrada ontem (23 de junho), apura o pagamento de propina na ordem de 100 milhões de reais, realizados entre 2010 e 2015 (portanto, parte dos pagamentos ocorreu durante o processo do mensalão). Ou seja, UM DIA de um DESDOBRAMENTO da Lava Jato deu meio mensalão.

Em sete anos de muita enrolação, a turminha do MPF, PF etc. que trabalhou no mensalão investigou uns 200 milhões de reais de desvios. Ao final, alguns políticos pegaram penas tão leves que foram soltos logo em seguida. E Joaquim Barbosa saiu como herói.

Em pouco mais de dois anos, a turminha de Curitiba realizou mais de 1 200 procedimentos, 52 acordos de delação premiada e 105 condenações, totalizando mais de 1 140 anos de prisão. Já apuraram R$ 6,4 bilhões de propina e recuperaram quase R$ 3 bilhões (ou 15 mensalões). E naturalmente, se não fosse a inércia de um certo Rodrigo Janot, poderiam ter feito muito mais.

Em sete anos de mensalão, a turminha de Brasília só enxergou Banco Rural, Pizzolato, Marcos Valério, etc. Enquanto isso, bem debaixo de seus narizes, passaram Nestor Cerveró, Paulo Roberto Costa, Pasadena, os acarajés, os pixulecos…

Se não fosse pela turma de Curitiba, o Brasil seguiria achando que Joaquim Barbosa foi um herói e tendo o mensalão como símbolo da luta contra a impunidade.

Para quem sabia o que Delúbio já sabia, todo o estardalhaço em torno do mensalão era mesmo piada insignificante.

(Nota: Este artigo foi publicado originalmente em minha coluna semanal no Implicante).

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Eduardo Cunha, o ninja

TODOS SABEM que Eduardo Cunha é o homem mais poderoso do Brasil, mas poucos sabem que ele é ninja. E também um grande jogador de Splinter Cell.

“Splinter Cell” é uma série de stealth games, ou seja, jogos de furtividade. O jogador entra em bancos, instalações militares, presídios, mansões e alguns dos lugares mais bem-protegidos do mundo sem ninguém perceber. Evita câmeras, hackeia os sistemas de segurança, distrai os guardas, apaga as luzes, realiza sua missão e sai de lá sem deixar rastros. No modo mais difícil, o jogador não pode encostar a mão em um inimigo sequer. Basta ser detectado para receber o “Game Over”. Este é o modo favorito de Eduardo Cunha.

Ao se acreditar na pauta ventilada pela nossa imprensa, Eduardo Cunha é não apenas imensamente poderoso, mas também incrivelmente furtivo. Em março, a famosa “lista do Janot” contava 47 nomes. Pelo que vimos nas últimas semanas, só um desses nomes importa: o de Cunha.

Isso não acontece, como podem acreditar os mais ingênuos, por alguma orientação política contra o homem que constitucionalmente tem a prerrogativa de encaminhar pedidos de impeachment contra a presidente Dilma. Nada disso. Na verdade, decorre da grande habilidade de Cunha noSplinter Cell.

Sozinho, sem qualquer ajuda ou orientação, Cunha se infiltrava à noite nas instalações da Petrobrás e de lá retirava tudo o que precisava, posteriormente mandando o produto para a Suíça. Cunha, pessoalmente, vestia-se de preto e evitava as câmeras, hackeava os sistemas de segurança, distraía os guardas, apagava as luzes, dava de comer aos cachorros. Se alguns poucos operadores sabiam do esquema, Cunha mandava totalmente neles. Ninguém no poder Executivo jamais soube de nada.

***

A ideia de que Eduardo Cunha “nunca apoiou” Dilma é mais uma das teses orwellianas que certo partido cometeu e certa imprensa repercute. Para citar apenas um exemplo, Cunha apoiou fortemente Dilma contra Serra em 2010. Cito alguns tweets do deputado:

“Datafolha, igualmente a todos os outros institutos de pesquisa, confirma liderança folgada de Dilma.”

“Voto em Dilma está consolidado. Indecisos vão optar pela continuidade, o que, convenhamos, é o mais sensato.”

“O discurso da Pres Dilma foi excelente,tocou nos pontos certos e nao deixou de falar na liberdade de culto e de citar Deus.Parabens”

“@Raphael_Lacerda faco parte do gov Dilma,pedi voto , sou apoiador dela,mas isso nao quer dizer que nao posso criticar atos ou pessoas do gov”

Como uma verdade não fica mais verdadeira pela soma de exemplos, paro por aqui.

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Hoje os petistas comemoraram uma decisão do STF que deu MAIS poder a Eduardo Cunha. Com a tripla liminar concedida a um mesmo assunto (!), o plenário da Câmara não pode recorrer se seu presidente rejeitar um pedido de impeachment.

[nota: agora entendemos por que o governo Dilma não recorreu ao STF contra a avaliação do TCU. Estava guardando munição…. adiante].

Agora cabe a Cunha decidir, completamente sozinho, se acata ou não os pedidos. Sua decisão é monocrática e inapelável.

O petismo não deixa de ter suas profecias corretas, ainda que corretas porque auto-realizáveis. A partir de hoje, agora sim, Eduardo Cunha é o homem mais poderoso do Brasil.

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