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O que há de racista em uma fantasia de Carnaval?

CAVERNA DO DRAGÃO, Charlie Brown e Odorico Paraguaçu têm todos algo em comum com Sísifo: seus dramas dependem de um problema que jamais pode ser resolvido.

As crianças de Caverna do Dragão jamais podem voltar para casa: isto eliminaria a origem e a motivação do enredo. Lucy van Pelt jamais pode permitir que Charlie Brown acerte a bola de futebol, pelo mesmo motivo que Cebolinha jamais pode virar o dono da rua. Odorico Paraguaçu, que se elege prometendo construir o primeiro cemitério de Sucupira, de fato consegue terminar a obra, mas se vê na situação de não ter com quem inaugurá-la…

Até aqui estamos falando de ficção, mas todos conhecemos situações semelhantes na vida real, da psicologia à política. Aprendemos na escola, por exemplo, que existe uma “indústria da seca”. A lideranças políticas do Nordeste interessaria a promessa de resolver a seca, mas não resolvê-la de fato, para que o assunto continue rendendo votos.

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Fernando Bustamente é ator e diretor de teatro. No mundo dele e de seus colegas, troca-se de papéis literalmente como se troca de roupa. A Lady Capuleto de hoje vive a Lady Macbeth na temporada seguinte.

A esquerda política gosta de muito usar um termo chamado “ressignificação”. Ressignificar é imaginar que as palavras são atores, e seus significados são papéis que elas podem vestir. Por exemplo, lá pelo fim dos anos 60 a torcida do Corinthians passou a chamar os palmeirenses de “porcos”. Depois de um tempo os palestrinos adotaram o xingamento com orgulho, e o tradicional mascote do time (o periquito) foi deixado de lado em favor do suíno.

Uma boa parte do trabalho da esquerda política hoje consiste justamente no esforço de ressignificação. Um exemplo: Reinaldo Azevedo criou o termo “petralha”, fusão de petista com Irmão Metralha. Durante a eleição de 2014, as páginas oficiais d’O Partido exibiam orgulhosamente mensagens com textos do tipo “eu escolhi petralhar”.

Da mesma forma, se um menino ou um homem crescido estampam capas de revista vestindo roupas tradicionalmente associadas às mulheres, isso também é ressignificação — e muito aplaudida por esta mesma esquerda.

Mas como já sabia um palmeirense famoso — Napoleão, de ‘A Revolução dos Bichos’ — nem todas as ressignificações são iguais.

Em abril de 2014, um racista jogou uma banana em Daniel Alves. Daniel Alves comeu a banana, dando origem à campanha “Somos Todos Macacos”. Boa parte da esquerda criticou a campanha. Na época eu não entendi o porquê, mas o recente episódio no Carnaval (Fernando Bustamente e sua mulher, vestidos de Aladdin e Jasmine, foram às ruas com o filho vestido de Abu) deixou mais claro. Para boa parte da esquerda não interessa a ressignificação do macaco — nem mesmo por decisão das próprias vítimas do racismo. É preciso que o macaco seja um símbolo racista para sempre, sob o risco de se perder o controle da narrativa. O corolário é que não há nada de errado em um menino branco se fantasiar de macaco, mas em um menino negro sim, num incrível esforço anti-racista no qual o negro pode menos.

Não é o único segmento no qual a esquerda reivindica o monopólio das minorias — desde que se comportem de acordo com a cartilha d’O Partido. Para ficarmos neste Carnaval, temos o exemplo de Ju Isen. A moça quis desfilar com um tapa-sexo com uma mensagem anti-Dilma. A escola vetou e Ju foi expulsa do sambódromo, aos empurrões, por um homem. Você viu alguma manifestação de solidariedade à moça? Se ela tivesse escolhido um tapa-sexo anti-Cunha, não faltariam textões de desagravo sobre sua LACRADA na sociedade e sobre a censura sofrida. Como Ju escolheu o outro lado da questão, o episódio ficou tão conhecido quanto o de Ruth Gomes de Sá ou o de Letícia, do MBL de Uberlândia (o leitor não sabe quem são? Não me surpreende).

Nas obras de ficção, os roteiristas [no tradutês dos BuzzFeeds de hoje, “escritores”] mantêm os problemas sem solução para manter seu ganha-pão. Em política, os significados devem ser cuidadosamente cultivados para manter o controle da narrativa.

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A controvérsia em torno da fantasia de Abu foi erguida por muitas pessoas que são fãs do Bloco Soviético [bloco de Carnaval em São Paulo] ou que nele nada veem de errado. Assim, aprendemos duas coisas com a esquerda neste episódio:

1. Escrever textão no Facebook é literalmente mais importante, na luta contra o racismo, do que adotar uma criança negra;

2. Uma ditadura genocida é um tópico perfeitamente carnavalesco. Já com personagem da Disney não se brinca.

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(Nota: Este artigo também foi publicado no Filhos da Nova República).

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Resenha: Invictus

Divulgação @ Paraná Online

Invictus é um filme obrigatório para todos os cidadãos brasileiros, e nestes 2.148 caracteres vou explicar o porquê.

Um filme pode ser bom por vários motivos. O elenco, por exemplo. E entre os méritos de Invictus inclui-se a atuação impecável de Morgan Freeman como Nelson Mandela, do sotaque aos lábios sempre apontando para baixo.

Outros méritos de um filme podem estar na fotografia e na montagem. É  o que vemos nas cenas do rúgbi em câmera lenta, no qual o esporte ganha aquele movimento épico exclusivo das propagandas de TV a cabo.

Mas num filme clássico o maior valor está na mensagem. Neste, ela é: o perdão derrota o medo, e é por isso tão poderoso. Quando tornou-se o primeiro presidente negro da África do Sul, Mandela poderia ter seguido o exemplo de seus colegas do Zimbábue, de Uganda e de tantos outros países, e buscado vingança contra os colonizadores. Mas ele escolheu não fazê-lo. Não por sobrevivência política – Mugabe está no poder até hoje; Mandela nem sequer tentou a reeleição – mas por uma profunda convicção moral.

Quando a África do Sul, até pouco tempo um pária internacional, vai sediar a terceira Copa do Mundo de Rúgbi, Mandela aposta desde o início na manutenção dos símbolos e cores da seleção, fortemente associada ao apartheid. Chama o capitão François Pienaar (Matt Damon) para um chá, e torce para que seu time, zebra no campeonato, erga a taça.

Nós no Brasil vivemos um momento em que elites intelectuais e políticas se esforçam para promover duas causas perigosas. A primeira: dividir o país em raças, com benefícios legais para quem alegar certos pedigrees. A segunda: chafurdar no passado de forma seletiva, buscando vingança contra torturadores ao mesmo tempo em que se ocultam os crimes de um dos lados da batalha. Na presidência, Mandela agiu firme contra as duas causas – racismo e vingança – e seu trabalho é mostrado no filme.

Baseado no livro Conquistando o Inimigo, do jornalista John Carlin, Invictus é, portanto, um filme obrigatório para nós brasileiros. Por mostrar que Paulo Vanucchi está completamente enganado, e Fernando Vanucci, certo. Afinal, a África do Sul é logo ali. Logo aqui.

Esse boné vale a pena usar, Presidente!

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