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Livro mostra que a editora da revista VEJA era cheia de comunistas

roberto civita_o dono da banca_cede silva

ROBERTO CIVITA(1936–2013; pronuncia-se “TCHÍ-vita”) fundou a revista VEJA e presidiu o Grupo Abril de 1990 até sua morte. É um dos principais nomes do jornalismo brasileiro. Foi responsável por criar ou trazer ao Brasil quase todas as suas principais revistas, como QUATRO RODAS, CLAUDIA, NOVA, PLACAR, PLAYBOY, EXAME, VEJA SÃO PAULO e muitas outras.

Carlos Maranhão é um dos melhores e mais experientes jornalistas brasileiros. Trabalhou por mais de 40 anos na Editora Abril. Foi escolhido por Roberto Civita para escrever sua biografia autorizada. Como o patrão morreu antes de Maranhão escrever o livro, este optou por publicar uma biografia não autorizada pela família (que não obstante deu entrevistas e emprestou inúmeros documentos). “Roberto Civita — O Dono da Banca” (Companhia das Letras, 534 páginas) chegou às livrarias neste ano.

Trata-se de uma biografia primorosa e uma aula de Jornalismo com J maiúsculo, em um texto saboroso que se devora em poucos dias. Mas como o espaço nesta coluna é limitado, vou me concentrar em um aspecto do livro: ele documenta como as redações da Abril estavam cheias de militantes comunistas, em grande parte à revelia do Dr. Roberto. Cito um trecho sobre a revista REALIDADE, uma, digamos assim, tia-avó de VEJA:

“Roberto, porém, demorou a identificar o terreno em que estava pisando. Não percebia que comandava gente politicamente engajada — do lado oposto ao seu — e em parte com vida dupla. Ele diria que em seus anos nos Estados Unidos não conheceu um único esquerdista. Achava que uma pessoa inteligente e informada não poderia ser comunista” (pág. 127).

É o próprio Roberto Civita quem fala neste trecho gravado sobre a militância política de seus subordinados:

“A revista [REALIDADE] seria o resultado da conjugação de muitos talentos e energia. Eram talentos diferentes, com visões de mundo diferentes. Havia uma preponderância de esquerda, disfarçada. E também militância clandestina. Eu não percebi. Só me dei conta mais tarde das armadilhas. Eu não tinha sensibilidade para ver contrabandos nas matérias. Eles me driblavam. Não me considerava uma pessoa ingênua (…) Mas eu era. Anos depois, comecei a dizer para mim mesmo: ih, Roberto, aqui você foi enganado, ali você foi tapeado (…) [N]em me ocorreu que poderia existir no Brasil um pensamento de esquerda que eu considerava retrógrado” (págs. 127–128).

Citando alguns clubinhos: os jornalistas Paulo Patarra e Milton Coelho da Graça eram do PCB. Roberto Freire, o Bigode, era da Ação Popular (AP), bem como o pesquisador Duarte Pacheco, que depois atuaria no jornal “alternativo” ‘Movimento’. A base de apoio à ALN de Carlos Marighella tinha “vários jornalistas” na Abril. O próprio Patarra contou:

“A redação era um ninho de stalinistas, maoístas, cristãos de esquerda e esquerdistas etílicos” (pág. 126).

Tem mais. No início de 1970, quando VEJA já existia e a revista PLACAR estava para ser lançada, Juca Kfouri foi convidado para ser pesquisador de esportes. Quem ele consultou antes de tomar uma decisão? Joaquim Câmara Ferreira, o “Velho”, dirigente da ALN (ver pág. 344), que o “autorizou” (sic) a aceitar o emprego. Na época, Juca era militante da ALN e motorista de Velho (em tempo: Kfouri cobriu a biografia de elogios). Já em 1979, PLACAR era dirigida por Jairo Régis, “que, a exemplo de Milton [Coelho da Graça, diretor da revista INTERVALO] e Juca [Kfouri], atuava no Partidão” (pág. 345).

Existem outras tantas referências no livro sobre a militância clandestina de esquerda na Abril. Maranhão não se aprofunda nelas, já que seu objetivo era outro, e não ilustra exatamente por meio de quais decisões ou reportagens a esquerda passou a perna no patrão. Isso é assunto para outro livro. Duas conclusões são certas:

  • mesmo pessoas muito inteligentes e poderosas podem não enxergar a atuação da militância de esquerda debaixo do nariz delas. Podem até mesmo acreditar que comunista não existe.
  • sempre que alguém te disser que tal publicação ou tal empresa é “conservadora”, “reacionária” e etc., desconfie…

***

(Nota: este artigo foi publicado originalmente em minha coluna semanal no Implicante).

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